28 de Julho – 504º aniversário da vila de Água de Pau

[1] Porto Manuel Afonso Pavão ou Baixa D’Área

Manuel Afonso Pavão, um dos nobres povoadores, deste lugar que viria a suscitar motivos para dar o nome à terra de – Água de Pau – foi um dos que saíram de Portugal para se vir radicar nesta ilha de S. Miguel.

Não será difícil de adivinhar porque foi esta terra uma das primeiras a ser povoadas nesta ilha, logo depois de em 1439 o rei D. Afonso IV ter dado licença ao Infante D. Henrique para que mandasse povoar as [sete] ilhas dos Açores já descobertas. Flores e Corvo ainda não tinham sido.

Imagino M. Afonso Pavão num barco, com a sua e outrasfamílias, sonhando com a oportunidade de melhores dias para a sua vida, nestas ilhas…num dia assim, de mar chão e o azul do céu espelhado na água…deparando-se com uma enseada destas, com uma praia de areia, rasgada por uma cascata de água transparente, deslizando por um enorme pau de madeira tombado na falésia – daí o topónimo Água de Pau. Com certeza que ficaram todos seduzidos por este lugar. De tal forma que Manuel Afonso Pavão, um dos nobres de Portugal,se estabeleceria mesmo nas terras vizinhas a este porto, que ganharia o seu nome, e, se tornaria o primeiro porto da Vila de Água de Pau.

Um dia visitei este lugar, (Abril 2005) acompanhado pelo Professor José Hermano Saraiva. Este, olhando esta praia do alto da escadaria de acesso à praia, não aceitando bem o facto das antigas embarcações terem entrado por esta praia, como eu lhe transmitia, pediu-me que o ajudássemos a descer até ao pé da antiga cascata d’água, na enseada recortada da praia.

Ali chegando, entendeu então que na verdade as embarcações teriam mesmo entrado e ancorado na praia. Deve-se esta opinião, segundo o professor, ao facto de o caudal forte da cascata d’água que se despenhava na praia, abrir uma “calheta” ou corredor na praia, permitindo a entrada do barco, que tinha fundo plano. Assim a embarcação entrava com a maré cheia e ancorava, na calheta. Para largarem de novo teriam de aguardar pela maré cheia.

CONCLUSÃO: Há 504 anos, como vila [1515-2019] que este lugar seduz e deslumbra aqueles que têm olhos de ver…na cara!

Mas aos primeiros que aqui chegaram, o que os seduziu mais foram os seus recursos hídricos e os seus terrenos férteis !  

[2] Monte Santo ou Pico da Figueira

Este monte tem ou é conhecido, desde o povoamento de Água de Pau, por várias denominações:

• Pico da Figueira Assim conhecido por ter no fundo e centro da cratera extinta uma figueira plantada por um dos primeiros povoadores e proprietário que embora a tenha plantado, viria a suicidar-se nela. Ainda até há poucos anos continuava a estar lá uma figueira, embora não acredito ser ainda a mesma, claro. Devendo-se a explicação ao facto das figueiras se desenvolverem bem naquele lugar e em toda a Caloura.

• Pico do Concelho – Por ter sido por muito tempo propriedade do antigo concelho de Água de Pau.

• Pico do Monte Santo – Após a menina Joana ter se avistado com Nossa Senhora em 1918, os seus pais erigiram esta ermida entre 1928 e 1931.

• Pico da Merda-Seca – Porque consta na terra que segundo antigos testemunhos, algumas das suas gentes, na impossibilidade de aliviarem suas necessidades, se deslocavam ou aproveitavam a ocasião quando ao monte iam com seus rebanhos de cabras.

• Pico onde a “Porca Furou o Pico” –Onde segundo a antiga lenda, um casal que tinha no curral do seu quintal, nas traseiras da sua casa, na encosta do Pico do Concelho, porca em vias de dar criação uma prole de marrãozinhos. Decorriam em Água de Pau, as Festas da Senhora dos Anjos, em agosto. Os cuidados eram muitos tidos com a porquinha pois contribuiria muito para a economia da família, pensavam, enquanto gozavam o arraial da festa. Mandaram um dos filhos a casa vigiar a porquinha, não fosse ela precisar de cuidados. Ao chegar ao curral, aterrorizado, reparou que a porquinha tinha fugido, derrubando a fraca parede de toscos paus. Subiu a encosta e depressa estava no cimo do Pico e procurou até anoitecer, pela porquinha, sem a encontrar. Finalmente quando a encontrou, encontrava-se a mesma do outro lado do monte, dentro de uma gruta, que o rapaz deduziu tratarse dum túnel furado pela porca desde o seu quintal. Foi dar a novidade aos pais, procurando-os pelo arraial da festa, gritando a “ a porca-furou-o-Pico!” … “a porcafurou-o-Pico!”. Desde então e por muitos anos a história serviu de chacota para os naturais da terra.

Assim , sempre que uma camioneta de excursão atravessava Água de Pau, eram baixadas as janelas e gritavam os passageiros: – “Foi aqui…Foi aqui…que a porca furou o Pico?” As respostas não eram agradáveis e nem demoravam.

Saíam à velocidade de “canhão e palavrão”…com sequência de cenas desagradáveis e manguitos de estremecer o chão e os quatro cantos da praça de Água de Pau, na passagem do autocarro com os passageiros, debruçados na janela e apontando com o dedo indicador para o chão…”foi aqui…foi aqui?

• Há quem interprete esta lenda com ofensa à terra e às suas gentes. No entanto, encontramos nalgumas quadras do folclore pauense a história comentada à laia de desgarrada, constituindo já parte da herança cultural e etnográfica desta terra. Citarei duas quadras só: Eu fui a Água de Pau / E, o vinho não era mau, sete vezes molhei o bico. / Diga-me lá tia Maria, se foi nessa freguesia, /Que a porca furou o Pico? E a resposta era assim: Se a porca furou o Pico, / Aqui nesta freguesia, então vos digo, / Pois sim, tendes toda a razão / Agora só falta furar a porca da sua mãe!

CONCLUSÃO: Há 504 anos que esta Vila de Água de Pau faz história contada pelos seus populares e referenciando os seus lugares belos desde a Galera à Serra e desde a Amoreirinha ao Monte Santo.

Por: RoberTo MedeirOs
(Artigo publicado na edição impressa de agosto de 2019)

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