Voz do Passado – Vozes na rua, envelhecidas… de Água de Pau!

Quando cheguei à Praça de Água de Pau apoiei-me à parede de um edifício e pareceu-me ouvir vozes na rua, envelhecidas! Fechei os olhos e lá estavam, passeando-se no meu pensamento.

Surgiu-me então motivação para recordar-me de pessoas desta terra que conheci ou ouvi falar, dos seus feitos, durante os antigos serões de família, no canto da rua da Carreira e nas Praças Nova e Velha da minha Vila de Água de Pau.

Recordo-me que era gente de saber de quase tudo; de mexer na terra, de falar das pescas, de saber fazer uma esparrela pra apanhar canários, de saber contar histórias, e, que me ensinaram como é bom conhecer a razão de tudo e das coisas que nos rodeiam.

Quando hoje penso nos tempos que já lá vão, nas pessoas com quem eu me criei, brinquei e pintei-o-corisco na minha mocidade maravilhosa, recordo os meus amigos antigos. Por onde andarão os que nunca mais vi? Sabe-se lá! … andaram na mesma escola que eu andei até que… eu fui para a cidade estudar e muitos deles emigraram. Hoje toda gente “estuda”. Naquele tempo não passávamos de 10 na nossa terra.

Dos que emigraram, passados menos de dez anos, alguns regressaram à terra, por altura da festa da Quirida Senhora dos Anjos, no mês de Agosto.

Nalgum tempo, em que os primeiros emigrantes voltaram a Água de Pau, um “dólar” americano valia 27$50 (vinte e sete escudos e cinquenta centavos). Era uma folia vê-los com poucos “dollars” na algibeira, fazerem-se de ricos nos cafés da Praça.

Uma cerveja custava 2$50 o que era o mesmo que dizer que se um emigrante entrava no café-restaurante do senhor Guilherme D’Arruda, bastava-lhe um dóllar, para pagar uma rodada a 11 pessoas, ou seja, a todos os que por lá andavam “à gosma” duma cervejola.

Todos entravam na “corrida” mesmo os que já lá estavam ainda em viagem da última bebedeira, da semana passada ou do dia anterior, se não fosse já daquele mesmo dia até!

Como dizia, todos entravam na rodada, pois ver “gente-alegrinha” era uma das satisfações dos nossos emigrantes. É como se dizia antigamente – não faltavam caídos sempre à espera dos emigrantes na Praça, quer do lado de fora, quer do lado de dentro dos cafés.

Nesse tempo, Água de Pau tinha a fama de ter o famoso vinho de cheiro da Caloura, mas os “caídos” estavam fartos de “levantar-Nosso-Senhor” ou beber vinho, durante todo o ano, que mal chegavam os emigrantes para as festas de Agosto, antes da vindima, ninguém bebia já vinho velho. Eram as cervejolas que faziam a “função-de-goela” dos “caídos” pela Praça.

Nem vou falar aqui dos nomes dalguns caídos, para ninguém cair da cadeira, quando lesse os mais curiosos nomes de como eram conhecidos à boca-cheia os ditos amigos da Praça. Eram engraçados os nomes apenas e muito típicos na maneira de identificar melhor as pessoas na nossa terra.

Naquele tempo, aqueles amigos ou caídos encostavam-se às paredes dos cafés e das tabernas. Hoje, quem se encosta às paredes na Praça já não são os caídos são os descaídos, sem trabalho ou sem interesse no trabalho ou então a conviver na Praça, que é uma prática muito antiga também desta terra – viver e conviver fora-de-portas!

Antigamente essa tradição de viver e conviver fora-de-portas e ter sempre gente na Praça, durante o dia, ganhou força porque as famílias eram numerosas para casas pequenas. Apenas coabitavam juntos nas horas das refeições, ou à noite, bem entendido. Assim que amanhecia… á-la toda a gente p’rá rua; crianças p’rá escola, rapazinhos pró campo desviar-praga nas sementeiras desde a Amoreirinha ao Pisão.

Os rapazes iam para as indústrias de vimes, os homens iam para o campo dar (ao corpo) uma semana ou um dia de trabalho nas terras dos agricultores. Já as raparigas iam para a costura nas Henriques, para as vindimas, para as desfolhadas de milho, para as fábricas de cordas de linho-de-russo (espadana) e outros ofícios domésticos.

Os nossos pescadores, recordo-me, também tinham de ir para a Caloura sempre em grupos de mais de duas “companhas” para ajudarem-se mutuamente no varar e recolher das embarcações a braços, pois ainda não havia o guincho eléctrico.

Recordo-me dos gritos-de-ordem alucinantes do Arménio Pacheco pescador, pois os mesmos ecoavam na rocha da Caloura e espalhavam-se, ouvindo-se muito bem no Castelo, Portela e Cinzeiro da Caloura.

Desperto de tudo isso porque entretanto alguém buzina seu carro e traz-me de volta à realidade, numa Praça diferente, cuja função continua a fazer a sua histórica. Mas, agora com outras pessoas, com algumas das que antigamente a conheceram provavelmente. Depois ainda ouço um chaprão qualquer dizer a outro – “acorda pá vida rapaz!”…e lá me fui embora para a minha Caloura!

Por: RoberTo MedeirOs – em viagem pelo tempo na sua Vila de Água de Pau!
(Artigo publicado na edição impressa de maio de 2019)

Categorias: Lagoa, Opinião, Voz do Passado

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