“Antes que a memória se apague”

Trata-se do meu primeiro livro a publicar no fim de Março no auditório da Escola Básica Integrada de Água de Pau com diversas crónicas, que permite ver retratados os nossos antepassados, amigos, vizinhos, parentes, como se de uma peça de teatro se tratasse e de forma lúdica e divertida, passagens de vida típicas de uma época.

Estas crónicas permitem homenagear o povo de Água de Pau, fazendo renascer personagens em histórias de vida, com um imperativo dever de as registar, eternizando, assim, a nossa querida vila e o seu bom povo. Estas narrativas, escritas de maneira real, mergulham o leitor, crónica após crónica, na história do nosso passado, enaltecendo a forma de viver e as tradições do nosso povo. Em todas elas, manifesta-se sentimentos de puro amor à nossa terra e às suas gentes, pela maneira alegre, divertida e prazenteira com que sempre souberam levar a vida. Procuro com os meus relatos, bem como as expressões utilizadas, recolhessem importantes apontamentos da história da vila de Água de Pau.

“Antes que a memória se apague”, num registo literário acessível a todos, pinta um quadro coletivo dos pauenses que tiveram um papel fundamental na vida deste povo ilhéu. O leitor mergulhará num mundo cheio de vozes e ecos antigos, tão perto de cada um, pela linguagem que procurei usar, muito genuína da que aprendi com o nosso povo.

Por isso, este livro é um testemunho de vivências de pauenses no último século, marcados pela pobreza e nobreza, alegria e tristeza, guerra e paz, ditadura e revolução, emigração massiva, relações de amizade, familiar e de solidariedade própria dos habitantes da linda Vila d’Água de Pau.

Uma das maneiras mais interessantes de conhecer alguém, pessoa ou país consiste em percorrer as suas mudanças. Mudamos muito. Os portugueses e os açorianos em geral, e os pauenses em particular, são hoje muito diferentes do que eram há 60 anos. Vivem e trabalham de outro modo, mas sentem pertencer ao mesmo país dos nossos avós. É o resultado da História e da Memória que criam um património comum. A vila de Água de Pau mudou, é verdade. Os pauenses mudaram e muito, mas as suas memórias devem ser registadas “antes que a memória se apague”.

Em 1960, Portugal era um país rural. A maioria já não sabe como era há 59 anos, muito menos há 80. Este livro relata como era, pela boca do emigrante pauense Tobias Teixeira, de 96 anos, há 66 anos no Brasil e ainda bem lúcido. Tal como em Água de Pau, nessa altura, os açorianos micaelenses, viviam no campo com dificuldades e pobreza. Só tínhamos uma pequena cidade, as localidades estavam separadas umas das outras. Viajava-se pouco. Muitas pessoas nunca iam a Ponta Delgada e os do Nordeste e Povoação menos iam, porque ficavam mais longe ainda.  

“Quando era criança, meu pai Manuel Egídio de Medeiros levava-me para passear de automóvel pelas ruas de Água de Pau, levava para todos os lugares. Há memórias que custam a apagar, e, elas começam quando começamos a brincar.

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a vila. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há-de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Apenas pelo motivo da intimidade e pelo que elas significavam para nós. As memórias do vivido sempre se reportam a uma trajetória de vida. A localidade onde nasci evocou em mim a sensação de pertencer a ela, visto ter sido nesta vila de Água de Pau que fui criado e, portanto, o espaço inicial de minhas memórias.

Eu gosto de vasculhar as minhas memórias antes que elas se apaguem…!

Por: RoberTo MedeirOs 
(Artigo publicado na edição impressa de março de 2019)

Categorias: Cultura, Lagoa, Local, Opinião

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