A Igreja Matriz de Lagoa [Santa Cruz]: um pouco de como foi ao longo da História

Embora ignorando-se a data da sua fundação oficial, sabe-se que Rodrigo Afonso, que veio para a ilha de São Miguel no início da sua colonização, em companhia de Gonçalo Vaz, foi o instituidor da fábrica menor daquela Igreja, legando-lhe, assim, “sessenta e e dois e meio alqueires de terra lavradia, sita no Pico da Pedra, hoje conhecida por terras de Santa Cruz”.[1]

Sabe-se, segundo Gaspar Frutuoso, in Saudades da Terra (L. 6, cap. 13) que D. João Lobo, Bispo de Tânger, veio aos Açores por ordem de D. Diogo Pinheiro, vigário de Tomar, e deu ordens sacras na Vila da Lagoa da ilha de S. Miguel a 25 de Agosto de 1507.[2] Em 1518, a igreja possuía três altares e uma confraria de Nossa Senhora, como consta do testamento comum de Mecia Afonso e de seu sobrinho Alvaro Lopes (do Vulcão) feito a 21 de dezembro do mesmo ano. Um dos três altares era de S. Pedro. [3]

Em 1543 possuía as seguintes confrarias: de Santa Cruz, dos Fieis de Deus, Santa Maria do Rosário, da Conceição e São Sebastião, como consta respetivamente no testamento de Alvaro Lopes do Vulcão, datado de 17 de maio.[4]

O primeiro livro do registo paroquial é o de casamento e deste os assentos mais antigos que se encontram, segundo registos, são de 1541. Os de batizados e de óbitos são mais modernos.[5]

O Dr. Gaspar Frutuoso, que dá nome à atual Avenida Gaspar Frutuoso, que dá para a Igreja de Santa Cruz atualmente, foi seu pároco interino desde 1558 até março de 1560, no tempo da vacância desta Igreja entre Diogo Pereira e Baltazar Fernandes, respetivamente terceiro e quarto vigários. Deste último, pode constatar-se, começam os registos de casamentos em janeiro de 1561.[6]

O primeiro vigário foi João de Évora, que era clérigo da Ordem de São Pedro. O segundo foi, portanto, Sebastião Fernandes, que serviu pelos anos de 1527.

Diogo Ferreira, irmão de Gaspar Ferreira, esteve como terceiro vigário da Igreja de Santa Cruz pelos anos de 1541. Na segunda metade do século XVI, a primitiva igreja deu lugar a um espaço religioso mais imponente: uma igreja matriz. Já Balthazar Fernandes foi vigário de Santa Cruz de 1561 a 1568.

Nos anos de 1583, 1584, 1585 e 1586 o serviço religioso era feito na ermida do Rosário que, durante esse tempo, servia de Matriz, como se vê no registo de casamento desses anos. Assim se conclui que não se fazia, nesses anos, serviço religioso em Santa Cruz. Por que razão? Consta-se, no livro do padre João José Tavares, A Vila da Lagoa e o Seu Concelho, que o que nos leva a crer tal facto é que a Matriz [de Santa Cruz] estava, à data, em obras de reparação, que impediam o exercício do culto.[7]

A colegiada era composta por um vigário, cura, tesoureiro e quatro beneficiados. Mas que atribuições são estas?

Vigário: “A´maneira que a população desta ilha ia crescendo, a Ordem de Cristo, a quem estas ilhas pertenciam, ia enviando para as localidades mais importantes párocos com o título de capelães, como diz Fructuoso, e depois com o título de Vigarios.” (…) O titulo de Vigario ficou nos párocos dos Açores, apresentados pelo padroeiro. E como o Prelado Diocesano collava ou conferia as igrejas a estes sacerdotes, por isso se chamavam Vigarios collados e são inamovíveis” – (pp. 129 e 130 – A Vila da Lagoa e o Seu Concelho, do padre João José Tavares).

Cura: “Conforme a população da paróquia o Vigario tem um ou mais coadjutores com título de Cura.” (pp. 130 – A Vila da Lagoa e o Seu Concelho, do padre João José Tavares).

Tesoureiro: “O Tesoureiro, em geral um sacerdote, tinha sob a sua guarda e responsabilidade os paramentos, alfaias e vasos sagrados, designando os que deviam servir nos actos do culto, ministrando os guisamentos para as missas, servindo de mestre de cerimonias e tendo a seu cargo o asseio do templo e altares” – (pp. 130 – A Vila da Lagoa e o Seu Concelho, do padre João José Tavares)

Beneficiados: “São os clérigos adidos a certas igrejas formando uma corporação chamada colegiada, do latim collegium que significa corpo ou companhia de pessoas da mesma profissão. A matriz de Santa Cruz e a de Nossa Senhora dos Anjos eram igrejas colegiadas, tendo a primeira seis beneficiados e a segunda quatro. O seu fim era tornar solenes os actos do culto, sobretudo as festas oficiais e por isso ambas elas tinham organista pago por El- Rei como Mestre da Ordem de Cristo. A matriz de Santa Cruz tinha também pregador (…) e mestre da capela, a expensas das rendas da fábrica.” (pág. 130 – A Vila da Lagoa e o Seu Concelho, do padre João José Tavares) “Do mesmo modo que os lugares de cura, também os de beneficiado reflectiam a existência de uma hierarquia eclesial. Desde logo, porque apenas um número restrito de igrejas tinha beneficiados: as três igrejas da cidade; as Matrizes da Lagoa, Vila Franca do Campo e Ribeira Grande; e as igrejas de Nossa Senhora dos Anjos, em Água de Pau, de Nossa Senhora da Conceição, na Ribeira Grande, e de São Jorge, no Nordeste.” “(…) o número de beneficiados também não era o mesmo de cada uma das igrejas mencionadas (…)” – (São Miguel no século XVIII: casa, elites e poder, de José Damião Rodrigues)

Continuando a história da edificação da Igreja de Santa Cruz: destes quatro acima dispostos, na dita igreja, o último foi criado por alvará régio de 18 de Julho de 1613. Depois o quadro dos beneficiados passou a seis. Teve também pregador, organista e mestre de capela. [8]

Diz-se, também, que o púlpito e o respetivo docel de madeira preta e cedro, com pintura e douramento é um trabalho de grande valor, estando datado de 1784. Tem um relógio na torre que veio de Morez [França], começando a trabalhar, oficialmente, a 24 de outubro de 1909, segundo uma ata da Junta da Paróquia daquela data.[9]

A Junta da Paróquia, também, a 18 de setembro de 1837, deu parte ao administrador do Concelho de que estava feito o orçamento “para remontes dentro e fora da Igreja e fazer uma capela para o baptistério, pois a que existe é a peior de todas as desta ilha”[10]

Um outro nome a ter em conta é o do padre Agostinho Inácio Machado, sendo que este fez importantes obras de restauro e ampliação da Igreja Matriz de Lagoa, Santa Cruz, construindo um amplo salão paroquial.[11]

Por: Júlio T. Oliveira
(Artigo publicado na edição impressa de março de 2019)

___________________________________

[1] TAVARES, 1979, pp. 44.

[2] TAVARES, 1979, pp. 44.

[3] TAVARES, 1979, pp. 44.

[4] TAVARES, 1979, pp. 44.

[5] TAVARES, 1979, pp. 44.

[6] TAVARES, 1979, pp. 44.

[7] TAVARES, 1979, pp. 45.

[8] TAVARES, 1979, pp. 45.

[9] TAVARES, 1979, pp. 48.

[10] TAVARES, 1979, pp. 49.

[11] OLIVEIRA, 2017, pp. 78.

 

Deixe o seu comentário

Your e-mail address will not be published.
Required fields are marked*