“Tenho muito de clássico na minha alma”

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Tomaz Borba Vieira é uma das figuras mais destacadas da sociedade lagoense: pintor, professor e escritor, Tomaz vive, pacatamente, na sua casa, na Caloura, juntamente com a sua esposa, junto, bem junto, ao seu Centro Cultural, fundado por si, pelas suas próprias mãos. Um espaço repleto de obras de arte que, por mais curioso que se possa imaginar, não tem nenhuma da autoria de Tomaz Borba Vieira, como faz questão de ressalvar em entrevista exclusiva ao jornal Diário da Lagoa. “É rigoroso o cumprimento de que não há quadros meus no Centro Cultural da Caloura”.

A sua vida e obra: era este o principal propósito daquela entrevista. Mas, começando, e embora um tanto quanto filosoficamente, é possível dissociar a vida da obra, nas palavras de um artista, nas palavras de Tomaz Borba Vieira?

“Eu acho que não. Tudo aquilo que nós fazemos, seja no que for, tem a ver connosco próprios, tem a ver com a personalidade e com a experiência de vida que cada um tem”.

Mas se existem vidas que passam por esta passagem e que não deixam obra nenhuma, Tomaz diz-nos que “eu acho que não se pode afirmar isso porque há muita obra que não é reconhecida. Eu tenho conhecido, não só nas artes, mas em muitas atividades, pessoas notáveis que não deixam nome gravado, mas que deixam memórias muito fortes à família, à comunidade e aos amigos. Conheci homens, conheci pessoas, digamos desconhecidas, ou ditas por desconhecidas, com personalidades de grande valor, de grande capacidade de ensinar”.

Se o artista, por norma, é um ser que se inspira, que se sente tocado por dentro pelo exterior – pelo que está por fora, digamos -, Tomaz, ao jornal Diário da Lagoa, confessa que “eu não uso a palavra inspiração, porque nem todas as ideias que nós temos, às vezes, são louváveis. De maneira que acredito mais no acontecer, no ver, no sentir, qualquer coisa que motiva para a atividade artística. Pode ser uma conversa, uma forma. Normalmente são formas, formas da natureza, formas do meio envolvente, aquilo que estimula a capacidade de  reconverter formas. Não digo criar, porque não se cria nada do nada: cria-se alguma coisa a partir de algo que já existe, que recriamos, que transformarmos, que adaptamos a nós próprios”.

Pintor, escritor e professor: é assim Tomaz Borba Vieira tido entre nós. Mas em qual destas três vertentes o mesmo se sente mais realizado?

“A minha primeira profissão foi professor. Sempre senti vocação para professor. Quando ainda estava no Liceu já sentia vontade de ingressar numa carreira de professor”, adiantando que “depois descobri que isso não era por uma questão de ensinar, era mais por uma admiração pela função da educação. A educação como meio importante da realização social”.

Fundador do Centro Cultural da Caloura, Tomaz Borba Vieira, aquando da fundação do Centro, diz-nos que “eu, desde muito cedo, desde 1959/1960, comecei a colecionar obras. Comprei a primeira gravura exatamente nessa altura. Daí em diante todas as minhas economias e extravagâncias eram em comprar obras”, tendo herdado também algumas peças do seu avô.

“Criei porque, quando me reformei e a minha mulher se reformou, fomos dar revisão ao que existia. Tínhamos quadros no sótão, as paredes cheias e começámos a pensar em ter um espaço para nós próprios. Daí, com a colaboração de um arquiteto, passámos para um passo mais largo que foi sentir prazer em partilhar a coleção com outras pessoas”, confessa-nos ao jornal Diário da Lagoa.

Considerando a insatisfação uma generalidade não privativa dos artistas, para Tomaz Borba Vieira “não se para exatamente porque não se está satisfeito e quer-se fazer mais”.

“Fui criado até aos seis, sete anos, sem irmãos, num quarto andar de um apartamento em Lisboa. De maneira que toda a minha atividade de infância era estar no chão a desenhar. Tinha gosto em desenhar. Nunca parei de ter uma certa tendência em desenhar. Tive também uma educação muito importante por parte do meu avô, que era uma pessoa de grande cultura, que me formou no pensamento cultural de toda a ordem e que era um grande conhecedor de arte”.

A arte é o método-mor da sublimação da dor ou a dor, por si só, é tão abstrata que não pode ser sublimada? – perguntámos nós. E Tomaz responde.

“Essa dor, eu julgo que é, e que tem de ser sempre, o sentir o mundo que nos cerca, a sociedade que nos cerca, porque, de facto, se não houvesse drama, se não houvesse sofrimento, se fosse tudo feliz, se fosse tudo cor-de-rosa, talvez não houvesse oportunidade de se fazer mais nada”, sendo que, de futuro, em relação ao tratamento da sua obra, Tomaz diz-nos que gostava que a mesma se mantivesse um conjunto, não fosse, assim, peças isoladas.

“O que acontece com essas coisas é fazer-se um leilão. Elas fazem sentido para mim em termos de conjunto na medida em que foram escolhidas com algum critério. É uma coleção que não representa apenas uma corrente, uma teoria, um estilo e uma técnica. Envolve todos esses aspetos desde o momento que tenha qualquer coisa que me seduz muito particularmente: o desenho. A estrutura de desenho. O desenho é a base de todas as coisas. Até mesmo da poesia. A Florbela Espanca dizia que “debaixo de tudo está o desenho”. O desenho, a linha de contorno, que é abstrata, é um meio de criação que se multiplica em formas infinitas”.

Ao terminar a nossa conversa, Tomaz afirma, ao jornal Diário da Lagoa, numa confissão que tem tanto de brilhante como de verdadeira: “Tenho muito de clássico na minha alma”, termina.

DL/JTO

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