Painel quinhentista da Matriz de S. Miguel Arcanjo, em Vila Franca do Campo, classificado como bem de interesse público

O Governo dos Açores classificou como bem móvel de Interesse Público o painel quinhentista ‘Lamentação sobre Cristo Morto’, cuja autoria é atribuída a Diogo de Contreiras, propriedade da Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo, na freguesia de São Miguel, em Vila Franca do Campo.

A classificação, publicada em Jornal Oficial, teve em conta “os critérios de classificação previstos na legislação, relativos ao caráter matricial do bem, ao génio do seu criador, ao valor estético, técnico ou material intrínseco do bem e à sua importância para a investigação histórica e científica”.

Os estudos efetuados mostram que o painel é “uma das obras-primas da pintura antiga nos Açores e uma das excelentes peças do Maneirismo em Portugal, pelo que representa um valor cultural de importância regional e nacional, tanto ao nível de autoria, como de autenticidade e raridade”.

O painel ‘Lamentação sobre Cristo Morto’ é o único exemplar remanescente do retábulo-mor mandado executar em Lisboa na sequência da reconstrução da Igreja Paroquial de Vila Franca do Campo, após o trágico terramoto de 22 de outubro de 1522.

A autoria do painel é atribuída ao pintor português Diogo de Contreiras, que a terá realizado, provavelmente, entre 1550 e 1560.

Diogo de Contreiras foi pioneiro na viragem estética que carateriza este período da pintura portuguesa, introduzindo uma maior dinamização teatral das composições e intensificando a espiritualização das cenas religiosas.

Trabalhou em Lisboa para as melhores clientelas do reino, sendo considerado um dos mais criativos pintores da época quinhentista e um dos iniciadores do Maneirismo em Portugal.

O painel é composto por oito tábuas de madeira de carvalho do Báltico (Quercus alba) e respetiva moldura original, estendendo-se as dimensões do conjunto entre 1,97 metros de altura por 2,08 metros de largura.

Segue a técnica da pintura a óleo com duas a quatro camadas cromáticas, constituídas por uma preparação à base de gesso e pigmentos (branco de chumbo, ocres, vermelhão, garança, azurite, esmalte, carvão vegetal) aglutinados com óleo de linho encorpado.

Sobre a camada de preparação, e por vezes observável à vista desarmada, deteta-se o desenho da totalidade das figuras, dos edifícios e da paisagem, numa composição de qualidade notável.

Subjacente às figuras centrais, observa-se uma imprimitura de tonalidade escura.

A cena pintada representa, em primeiro plano, o corpo morto de Jesus, amparado nos ombros por sua mãe e por Maria Madalena, que lhe segura as pernas, junto de um vaso com perfumes.

À direita da Virgem, duas mulheres auxiliam-na e, ligeiramente acima, três figuras masculinas permanecem de pé, sendo São João a mais próxima e destacada.

Do lado direito do observador, sensivelmente a meia altura, emergem três cruzes e, a partir destas e para o lado esquerdo, desenvolve-se um conjunto de elementos arquitetónicos e pequenos montes, que acabam por definir uma linha de horizonte.

No Calvário, junto das cruzes, identificam-se soldados em movimento, enquanto atrás se vislumbram silhuetas que parecem aproximar-se, sendo todo o plano superior ocupado por um céu carregado.

Em 2008, o painel encontrava-se muito danificado e sem visibilidade na capela colateral do lado da epístola.

Entre novembro de 2009 e dezembro de 2013, foi alvo de extenso estudo histórico, técnico e científico e de profunda intervenção de conservação e restauro.

Em 2014, foi recolocado no templo, em nicho de pedra basáltica com arco ogival, na nave do lado da epístola.

DL/Gacs

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