Voz do Passado – Cerâmica Vieira

A LOUÇA COMERCIAL FEITA NA LAGOA NA CERÂMICA VIEIRA [1936 ]

– Quando meu pai, Manuel Egídio de Medeiros abriu o seu primeiro estabelecimento com o nome de “A Cova da Onça” em 1936, na Praça da República, na Vila de Água de Pau, fez um acordo comercial com o senhor José Augusto Martins Vieira, proprietário da Cerâmica Vieira.

– Comprometer-se-ia a vender a Louça vidrada da Cerâmica Vieira, na sua loja e, em Água D’Alto, Vila Franca e Ponta Garça [porque na Vila Franca só se fabricava louça terracota e não vidrada], através de venda ambulante por carroça se a louça fornecida trouxesse estampada o nome do seu estabelecimento “A Cova da Onça”. Começara assim, a fazer «marketing» sem se ter inventado ainda a palavra.

Um carroceiro de Água de Pau esteve ao serviço d’A Cova da Onça e passou a fazer a venda de louça da Lagoa pelo concelho de Vila Franca, indo por vezes até às Furnas.

Foi Virgínio Cabral, também conhecido por Virgínio Cassapa, por ser rápido ou «veleiro» nas suas actividades e não por outro motivo menos próprio, pois era muito sério e de grande confiança de meu pai. Aliás, em Água de Pau, num passado longínquo, recente e ainda hoje ninguém se livra de «alcunha» de um momento para o outro. Essa terra «desbanca» nisso, ou seja, ultrapassa qualquer outra localidade açoriana.

Além da louça da Lagoa, Virgínio Cabral vendia também «galochas» de acácia forradas a pele de vaca. Eram fabricadas manualmente nos Barrancos de Água de Pau e iam por baixo da carroça numa caixa-tabuleiro dependurada e presa por quatro correntes a ganchos, por cima do eixo da mesma.

Meu pai lembrava-me quando eu era criança como tinha ensinado ao carroceiro a entoar pelas freguesias a venda da louça e galochas. Mas, um dia eu ouvi directamente da boca do tio Virgínio e ainda gostei mais, por causa das «caretas» engraçadas que ele me expressava.

Talvez o fizesse porque eu era criança e na sua sempre simpática e cordial simpatia gostava de me fazer sorrir e ver contente ou feliz com aquela forma simples de sua amizade.

Eu não tive a sorte de o apanhar como carroceiro. Esse tempo já tinha passado. Agora era latoeiro na sua oficina improvisada em casa, na rua dos Ferreiros. Era uma pessoa que sempre mereceu a amizade de toda a nossa família, pois até era compadre de meu pai, que fora padrinho de batismo de alguns dos seus filhos. Então era mais ou menos assim que ele entoava a sua ladainha:

— “ÔiimGaló – i-lousssaaa d’ááá Lagoa !!! “

A Louça da Lagoa que foi no passado de muito interesse «utilitário» pois não havia outra quando aqui se instalaram as duas fábricas, a da Cerâmica Vieira em 1862 e a Cerâmica Leite em 1872, mais de 100 anos depois passou a ser mais de interesse «decorativo».

Mas, para muita gente ainda continua a ser motivo de glamour e de cerimónia para muitas famílias nos Açores e em vários países para onde a “Louça da Lagoa” ainda continua a viajar e… até tem constituído “Pontos de Encontro” nos EUA, veja-se na Portugalia Marketplace em Fall River !

RoberTo MedeirOs – natural da Vila de Água de Pau, terra de muitas histórias
(Artigo publicado na edição impressa de janeiro de 2019)

Categorias: Lagoa, Opinião, Voz do Passado

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