Opinião: Depois do leite entornado

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Na crise global que atinge o preço da generalidade das matérias-primas incluindo as agrícolas, os lacticínios de base têm sido dos mais afetados, com repercussões diretas e indiretas no preço pago aos produtores de leite que são os que na Europa mais representam a pequena agricultura tradicional.
No dia 6 de Setembro, no contexto da Feira do Queijo de La Capelle – centro rural da Thiérache, em França, perto da fronteira belga – na qual estive presente a convite dos seus organizadores, pude constatar o tremendo mal-estar reinante entre os produtores de leite e pude ver as rugas cavadas nos rostos de quem não sabe como vai enfrentar credores e sustentar a família por mais que se mate a trabalhar, muito em especial os que vendem o seu produto diretamente à indústria.

Chegado a Bruxelas, vi a cidade já em estado de sítio a preparar-se para as verdadeiras batalhas campais que paralisaram o centro no dia seguinte, data da reunião do Conselho agrícola, em imagens que foram depois sendo disponibilizadas nas redes sociais.

O fim do sistema de quotas leiteiras em 2014 iria naturalmente colocar um setor de enorme sensibilidade em pleno risco de crise, e essa crise acabou por vir mais cedo do que se esperava. Fazendo parte da crise geral das matérias-primas, o leite sofre em especial da crise do principal mercado em expansão nos últimos tempos – o da China – com a crise das relações com a Rússia e com o colapso na procura do Grande Médio Oriente.

Na proposta que apresentei em 2010, em nome do German Marshall Fund dos EUA para a reforma da PAC, sustentei nesta matéria uma posição em dois tempos.

Por um lado considerei inevitável o fim do sistema de quotas que a prazo iria colocar a Europa fora dos mercados mundiais e levaria à inevitável crise do setor. Enquanto continuamos a discutir entre nós como se se tratasse de ficção científica o problema de se permitirem explorações com mil vacas na Europa, na China a discussão é sobre a quinta das 100.000 vacas, num reflexo de como continuamos alheados dos desafios económicos que enfrentamos.

Independentemente do bem fundado da decisão, uma leitura atenta da “geopolítica” do Conselho nesta matéria teria levado necessariamente à compreensão de que a batalha para a manutenção das quotas era uma batalha perdida.

Infelizmente não foi esse o entendimento dos decisores políticos e associativos que se mantiveram até ao fim das quotas numa posição de oposição de princípio sem alternativa.

Por outro lado, propus o estabelecimento de um “Seguro de Rendimento Agrícola” a ser usado, justamente em condições de quebras brutais de preços como as que temos assistido, Seguro esse de financiamento público e europeu que deveria substituir mecanismos sem sentido como a subvenção por hectare como forma de compensação de preços institucionais nos cereais de 1992.

Mas ninguém esteve interessado em ouvir falar de reforma (como aliás viria igualmente a acontecer com as minhas propostas de reforma do Euro) e o resultado está à vista: uma crise sem precedentes, famílias com o seu modo de vida destroçado, remendos de solução ad-hoc tomadas em medidas de emergência com impacto orçamental mas sem capacidade de fazer frente aos problemas, uma nova quebra da confiança nas instituições europeias.

O leite está claramente entornado, e também aqui estamos condenados a ver a convulsão substituir a reforma sem que, receio bem, venhamos a ter soluções aceitáveis.

E embora noutras paragens, não consigo deixar de pensar nos produtores de leite dos Açores, da sua tremenda capacidade de trabalho e de empenho, e o mau momento que muitos devem estar a passar. A todos um enorme abraço e os meus votos de que os responsáveis políticos regionais e locais não se esqueçam deles.

Por: Paulo Casaca
Bruxelas, 9 de Setembro de 2015

Categorias: Opinião

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