O desafio do ambiente no caminho para a sustentabilidade

Overview

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O Ambiente, e as respetivas questões e premissas de salvaguarda, proteção e recuperação dos elementos, recursos naturais, habitats e ecossistemas, são uma dimensão incontornável naquele que deve ser o modo de viver, planear, gerir, e governar um território como os Açores, indissociável também das questões e dimensões sociais e económicas desta Região. É esta, de facto, a base do conceito de Sustentabilidade – o equilíbrio, conciliação, articulação e integração do progresso social e económico com a necessidade de gerir a recuperação, conservação, valorização e uso de recursos naturais, por forma a que esse mesmo progresso possa ser mantido no futuro.

Os Açores, como região arquipelágica, ultraperiférica, com especificidades, dinâmicas e características territoriais, socioeconómicas, e ambientais inter e intra-ilhas bastante vincadas, constituem-se por si como um local privilegiado e com um potencial imenso para a conciliação dessas dimensões da sustentabilidade. Temos territórios limitados em espaço, os quais importa, por isso, gerir da forma mais eficiente possível, com recursos naturais distribuídos de forma heterogénea entre as diferentes ilhas, e mesmo dentro da mesma ilha. Territórios em que as questões de escala, dimensão e características biofísicas nem sempre permitem um modelo de gestão linear e comum. E para além desta componente terrestre, temos todo um território marítimo de potencialidades quase ilimitadas, que deve ser olhado e gerido com a mesma postura e intrínseco desse modelo de desenvolvimento.

É aqui que reside um dos principais desafios, e se torna cada vez mais premente a internalização efetiva (nas soluções e modelos de gestão dos recursos naturais a implementar) de ferramentas muito claras e objetivas, como as de avaliação dos Serviços dos Ecossistemas.

O Millenium Ecosystem Assessment (MA) foi lançado a nível mundial pelas Nações Unidas, em 2001, com o objetivo de responder à necessidade de obtenção de informação científica sobre a condição atual e as consequências das mudanças nos ecossistemas para o bem-estar humano. A sua aplicação assenta numa avaliação dos ecossistemas e da sua capacidade de fornecer serviços dos quais o Homem depende. Poderá considerar-se como uma perspetiva muito antropocêntrica do seu real valor (muito além do monetário), mas tem sido uma ferramenta que tem permitido sensibilizar e dotar os decisores de bases claras no apoio à tomada de decisão de opções de intervenção e gestão dos territórios e recursos. É neste contexto que a valorização económica dos serviços de ecossistemas (como o valor de uma paisagem para o bem estar e qualidade de vida, de água disponível em bom estado ou da preservação de uma determinada espécie, de alimento e de produtos medicinais naturais, a regulação do clima e do ciclo da água, entre outros) tem ganho visibilidade e credibilidade na última década.

Em síntese, os serviços dos ecossistemas traduzem-se nos benefícios que as pessoas obtêm dos ecossistemas, seja à escala local, regional e/ou global, podendo ainda incluir gerações futuras. Considera-se que esta abordagem e demonstração ao nível das soluções ambientais propostas pode promover um aumento da participação e envolvimento do público interessado relativamente às opções e intervenções a implementar, uma vez que se imprime uma maior proximidade ao território e uma perceção mais direta e materializada dos seus efeitos.

Esta é de resto uma das principais razões que levou ao desencadear do processo para o desenvolvimento e implementação de um paradigma e modelos de planeamento que assegurem o desenvolvimento sustentável da Região Autónoma dos Açores, em consonância com diversas estratégias europeias e nacionais e já expressos também nos Estudos de Base do Plano Regional de Desenvolvimento Sustentável da Região Autónoma dos Açores.

Assim, a aposta na dimensão ambiental assume-se como fundamental nestas ilhas cujo desenvolvimento se apoia muito na valorização dos seus recursos naturais e nessa própria imagem enquanto um ativo e significativo fator de diferenciação. São exemplo disso a visibilidade que os Açores têm ganho recentemente, sendo reconhecidos mundialmente como o segundo melhor arquipélago do mundo para o turismo sustentável, ou mesmo os diversos prémios e classificações como destino Quality Coast, Reservas da Biosfera, entre outras distinções.

Desde a Conferência de Estocolmo em 1972, tem sido percorrido um longo caminho e evoluído a consciencialização para os problemas ambientais. Os conceitos estão enraizados, mas na prática há ainda muito a fazer. Para os cidadãos e os agentes socioeconómicos estarem dispostos a implementar estes conceitos no seu quotidiano são precisas soluções não só ambientalmente eficazes, mas, simultaneamente, social e economicamente vantajosas. Eficiência e eficácia são fundamentais.

Contudo, o principal objetivo e desafio consubstancia-se em assegurar a recuperação, conservação e valorização dos recursos e valores naturais e o seu equilíbrio numa conjugação sustentável com a ocupação e atividades humanas. Para tal contribuirão não só os atores institucionais, organizacionais, científicos e de mercado, mas, incontornavelmente, cada um de nós. Sem a compreensão, consciencialização e intervenção da sociedade não será possível a verdadeira concretização de um modelo e estratégia de desenvolvimento sustentável para qualquer região, em particular para a Região Autónoma dos Açores.

Não se podem esperar resultados diferentes se continuarmos a atuar sempre da mesma forma e, por isso, o desafio passa por encontrar soluções e novos caminhos para o futuro.

Por: Carla Melo

Categorias: Opinião