Opinião: Pela objetiva de Paulo Medeiros

SONY DSC

Foi em 2010 que conheci o trabalho de Paulo Medeiros. Em abono da verdade, já antes havia visto alguns registos fotográficos seus, mas foi a partir da exposição coletiva Recantos da Costa das Ilhas de Bruma que senti uma espécie de encantamento pela sua forma de fotografar.

Naquele ano, o concelho de Lagoa acolhia uma exposição que tinha como epicentro o intuito de divulgar e enaltecer a orla costeira das nove ilhas dos Açores. Ao invés de se refugiar no verde e azul associado a estas ilhas, os trabalhos que o fotógrafo apresentou foram não convencionais, sombrios até, mas belos, muito belos. De certa forma remetiam para uma “beleza estranha (…) uma paisagem envolta em névoa ligeira e um pouco triste”, como descreveu, em 1924, Raul Brandão nas suas linhas sobre As Ilhas Desconhecidas. Pela sua objetiva, Paulo Medeiros aludia à sensação de isolamento causada pelo viver na ilha, ao tempo abafado e húmido, e ao negrume da pedra a renascer da bruma.

Em 2013, a propósito da exposição antológica 50 anos de escultura de Álvaro Raposo de França, promovida pela Câmara Municipal de Lagoa através da sua Biblioteca, foi a Paulo Medeiros que coube os registos para o catálogo. Poderia ter-se cingido em retratar as peças em exposição (também fê-lo, é certo), mas extrapolou o lugar-comum e foi em busca do momento de criação artística do escultor: da casa, do atelier, do silêncio e da mão a manipular a matéria. O resultado foi subliminarmente intimista.

Em 2014 o fotógrafo inaugura a exposição A(s) dança(s) do Ser no Centro Cultural de Ponta Delgada, endereçando-me o convite de tecer algumas palavras acerca da mostra. Ainda que não fosse (nem o seja) uma entendida na área da fotografia, a amizade e a gratidão por todas as vezes em que o fotógrafo havia dito “sim” a colaborações solicitadas, fizeram-me aceitar o convite, não sem antes vincar o meu amadorismo para esta arte. O pintor Tomaz Vieira disse em tempos que a fotografia “é um meio de olhar para as coisas”. O que fiz foi proferir algumas palavras sobre a forma de olhar do fotógrafo e da minha forma de olhar para o seu trabalho.

Num registo embebido de dramatismo nesta exposição individual, captou coreografias individuais feitas de corpos, gestos e passos em cenários sugestivos. A sua mestria foi além do registo do ballet clássico, do contemporâneo e das danças urbanas, para, através destas correntes, aludir aos passos da vida, à influência do meio sociocultural no nosso percurso, instigando-nos a reflectir se dançamos a nossa dança ou a dos outros. Inevitavelmente ver o conjunto daquelas imagens levou-me até ao Cântico Negro de José Régio.

Em cada uma das fases o fotógrafo, dito pela sua fala, pretendeu remeter-nos para uma determinada fase das nossas trajectórias de vida. A mostra culmina com o momento em que acabamos por nos sentar e olhar para dentro, revendo a nossa história e buscando a nossa bússola interior.

Esta exposição individual voltará a estar patente ao público de 13 de julho a 4 de setembro, na Casa da Cultura do concelho de Lagoa, à distância de uns passos. Os apreciadores de fotografia poderão ver uma série de trabalhos, feitos de jogos de luz e de sombras, que primam pela qualidade das imagens apresentadas. São fotografias que pedem para ser vistas pela técnica utilizada e que incentivam-nos a mergulhar na narrativa que o fotógrafo propõe.

Por: Teresa Viveiros

Categorias: Opinião