Opinião: O tiro de partida das legislativas

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De acordo com o “wiktionário” disponível no meu computador, a silly season é uma expressão adequada `a descrição de períodos como o de campanhas políticas em que determinados grupos se comportam de forma incarateristicamente frívola, alegre ou excêntrica.

Da mesma forma como na nossa sociedade de consumo o período de Natal, dos saldos ou das festas se foi alargando, o mesmo aconteceu às campanhas políticas, que começam com cada vez maior antecedência em relação às datas eleitorais.

O primeiro tiro foi disparado do lado do Governo no dia 15 de Abril com um programa de cinco anos feito de “estabilidade, [controlo de] riscos, reformas, estratégia, sustentabilidade, competitividade e compromisso”, tiro que logo levou a devida resposta por parte da oposição que duplicou a oferta – uma década para Portugal – feita de “estratégia, competitividade [controlo de] riscos, sustentabilidade, reforma, compromisso e estabilidade”.

O documento do Governo utiliza um costumeiro linguarejar burocrático com o qual pretende granjear credibilidade para as propostas eleitorais nele contidas. Sem sombra de surpresa e menos ainda de excentricidade, com uma soporífera capacidade de adjetivar e complementar e uma alegria típica de funerais, o pré programa de campanha promete o regresso ao quadro macroeconómico do passado, considera a crise no pretérito, num quadro nacional e resumido às finanças públicas, ou seja, insiste nos mesmíssimos preconceitos que com os quais se afundou o nosso país.

O documento da oposição está escrito num português inapresentável, com erros ortográficos e gramaticais, mau na sintaxe e péssimo na semântica. Muitas considerações, propostas e perspetivas são de grande importância e qualidade mas naufragam no mar de contradições e de adjetivação avulsa do conjunto em que se inserem.

A ausência da equipa socialista de redação do documento da ex-ministra e atual deputada europeia Maria João Rodrigues – de longe a melhor, mais fresca e mais treinada cabeça neste género de exercícios nesta família política – terá certamente explicação nos meandros da intriga partidária, mas é inexplicável no plano do interesse do país.

As tiradas queirosianas dos principais líderes políticos tentam pintar das mais garridas cores o cizentismo de um discurso esgotado e de uma análise inexistente, enquanto na imprensa se abusa da imaginação para encontrar motivo para o aplauso ou mais frequentemente para a indignação, que se torna aqui um motor indireto da mobilização eleitoral.

O emprego e os rendimentos reais dos cidadãos são naturalmente os pontos fortes em torno dos quais se desenvolvem as considerações de ambos os documentos. A fim de suscitar a adesão ou o interesse do cidadão eleitor, ambas as propostas minimizam o contexto económico global e em particular o europeu, avançando com projeções exatas de números nacionais como se alguma vez estes não dependessem fundamentalmente desse contexto.

As eleições europeias foram o tempo perdido para travar esse debate. Os eleitores não poderiam entender que quem nada propôs nas eleições europeias descobrisse agora que afinal as grandes questões eleitorais pouco dependem das decisões nacionais mas antes de decisões europeias e internacionais. Por outro lado, a perspetiva de uma opção nacional para problemas europeus – como a que estamos a ver desenrolar com a Grécia – é feita de convulsão e não tem prognóstico favorável.

Vai longe o tempo em que os cenários nacionais eram traçados em relação aos números europeus, forma certamente mais séria de os construir. O palco montado pelo nosso arco governativo tornou inevitável o aprofundamento demagógico da sua postura.

Amiens, 2015-04-24
Paulo Casaca

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