Opinião: O oitenta e o oito

Rui-Almeida-Opinião

É responsável, indiscutivelmente, por um legado importante na cidade e no concelho de Lagoa.

Primeiro, no concelho, na sua harmonia social, na sua requalificação urbana, nas intervenções adequadas e atempadas em diversos setores da vida quotidiana dos lagoenses.

Olhou para as diversas freguesias como um todo fundamental ao desenvolvimento sustentado e sustentável, e como elemento essencial para a geração de qualidade de vida das populações. Descentralizou e dotou-as de autonomia de decisão para lá do próprio espírito estrito da lei, percebendo que as células mais próximas do cidadão (as freguesias) são, no poder local, o fator que efetivamente determina o sucesso e qualifica os mandatos.

Fez uma gestão financeira equilibrada da tesouraria e dos orçamentos da autarquia. Não se inventa o dinheiro que não se tem, mas reinventa-se o dinheiro de que se dispõe. A circulação de verbas e a geração de apoios tem, sempre, de ser promovida e gerida “com arte”, no sentido em que não abundam recursos mas, por vezes, a vontade ultrapassa as limitações.

Há um esforço nítido no plano cultural e afetivo, por parte da autarquia lagoense. No chamamento “dos seus”, no cativar dos que vêm de fora. E na perspetiva mais ampla da análise na oferta cultural de um município: não é importante apenas o que somos, apenas a memória do que é tradicional. Ela tem de ser articulada e promovida com novas apostas e desafios prontos a desembrulhar e a enfrentar.

O concelho tem, hoje, uma das melhores ofertas gastronómicas da Região Autónoma dos Açores. Em quantidade, diversidade e qualidade das propostas disponíveis, a Lagoa leva hoje a palma a qualquer outro dos restantes 18 municípios açorianos. E tem um desafio forte para levar por diante: a sedimentação lagoense como elemento charneira de referência na alocação de empresas empreendedoras nos campos da tecnologia.

E quem visita a Lagoa tem, hoje, muito para ver. Pode comer bem, pode divertir-se, pode instruir-se. Das piscinas e ginásios à Pousada de Juventude, dos núcleos museológicos às festas religiosas e profanas. Ao longo de anos, de todos os anos do seu mandato, soube gerir, a maioria das vezes com perspicácia e algumas delas com “pinças”, as diversas sensibilidades e as múltiplas tendências. São elas, afinal, as tendências, que dão forma à identidade. A diversidade de um e de outro une-se no passaporte comum e na alma coletiva.

A Lagoa cresceu. Era já vila e sede de concelho, tornou-se cidade. Foi ele também que muito peleou pela elevação da sua terra à categoria de urbe, pensando no desenvolvimento, na capacidade de geração de subsídios e de concorrência a programas adicionais de desenvolvimento e apenas disponíveis a cidades, no âmbito da União Europeia. Há visão e ação. Porque um político, se interpreta a sua atividade como uma missão de serviço público e nunca como uma carreira profissional, deve combinar as duas: a visão prospetiva de um futuro que começa todos os dias, e a ação que permite estreitar laços e melhorar, efetivamente, os parâmetros de vida dos seus conterrâneos, dos seus munícipes.

É por tudo o que atrás fica escrito que me sinto desiludido. Fui membro da sua Comissão de Honra para a recandidatura ao terceiro mandato como Presidente da Câmara Municipal da Lagoa, que ele próprio procurou, no mais abrangente e envolvente sentido, supra-partidária. De outro modo, eu próprio não teria aceite o convite para integrar essa comissão. Nele votei para que voltasse a assumir, por quatro anos, a liderança do município da Lagoa. Nele, nas suas ideias, na sua perspetiva de desenvolvimento. E sempre pensei: daqui a quatro anos, ver-se-á.

Mas, e ainda com trabalho para fazer, com projetos para acabar e com pontas para moldar, sucumbiu a um convite. Não concluiu o seu trabalho na Lagoa. E, sobretudo, desiludiu quem, há menos de meio mandato, voltou a confiar na sua dinâmica e nas suas ideias. Nas autarquias, os partidos diluem-se. Ficam as pessoas, sempre acima dos cargos e próximas dos cidadãos.

Foi uma pena, meu caro João Ponte, que tenha tomado esta decisão.
Porque eu votei em si. Um voto é uma prova de confiança. É, por isso, uma coisa muito séria.

Por Rui Almeida

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