Opinião: Para o próximo ano …

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Na proximidade de uma mudança de ano os discursos de balanço são os mais esperados e não quero ser eu a introduzir uma nota dissonante. Até porque o exercício de balanço pode ser simultaneamente catártico e propedêutico, sobretudo em relação a eventos negativos: catártico na medida em que, ao obrigar-nos a enfrentar o rol de acontecimentos mais marcantes do ano já com algum distanciamento, nos ajuda a circunstanciá-los de forma mais precisa e ampla, alcançando uma melhor compreensão dos mesmos; propedêutico porque deverá ser um exercício que contribua para uma intervenção pertinente, à medida de cada um, na procura da sua resolução efectiva num futuro próximo.

É neste contexto que destaco duas realidades, uma no plano nacional e outra no internacional, ambas profundamente negativas e que considero não só terem marcado a nossa vida colectiva neste último ano mas, lamentavelmente, ameaçarem manter-se na ordem do dia, senão mesmo agravarem-se neste novo ano…

No plano nacional merece absolutamente destaque o drama das mulheres assassinadas em Portugal vítimas de violência doméstica. Esta é uma tragédia pessoal e familiar que, a ocorrer uma única vez, seria já excessivo, mas que de facto se multiplicou quarenta vezes no nosso país. É assim também uma vergonha nacional que a todos nos interpela e de alguma forma nos responsabiliza por sermos uma sociedade em que a mentalidade da posse sobre outros, da agressividade em relação aos outros se perpetua, uma sociedade que não consegue identificar os agressores e travá-los atempadamente, que não consegue libertar as vítimas dos seus agressores e disponibilizar suficientes alternativas, que ainda não encontrou estratégias para inverter estes números até os suprimir totalmente.

Muito se exige, pois, neste domínio: desde a educação dos jovens para o respeito pelos outros, sobretudo tendo em atenção que a violência entre namorados está a aumentar e que já então alguns jovens não estranham a violência na relação; ao nível de oferta de segurança e de condições de vida que apoiem efectivamente a decisão da vítima se afastar do agressor; não esquecendo uma assistência e acompanhamento mais eficazes das situações de violência familiar que vão sendo denunciadas às autoridades. É verdade que muito tem sido feito a este nível mas os números falam por si na exigência de que muito mais se faça ainda.

No plano internacional também creio merecer absolutamente destaque a investida, sem precedentes, de um crescente grupo de terroristas islâmicos que anunciam agora publicamente pretender instaurar e alargar um designado estado islâmico, através de qualquer meio, ameaçando ultrapassar todos os níveis de violência e de crueldade que o nosso mundo já viu. Este grupo terrorista Estado Islâmico (EI) já tem um autoproclamado califa – Abu A-Bagdhadi ­– e tem progredido a partir  da região situada ao noroeste do Iraque e em parte da região central da Síria. Entretanto, a sua expansão geográfica tem sido surpreendente nos últimos meses, impondo a sua lei de terror e barbárie às regiões e povos que vai subjugando: desde as mediáticas execuções de ocidentais transmitidas pelas redes sociais; ao assassinado de todos os que não se convertem ao Islão, incluindo centenas de crianças; e impondo sempre um nível atroz de crueldade nas suas acções como factor dissuasor de qualquer resistência.

Dir-me-ão que é uma realidade distante e que não nos afecta…, ao que eu poderia replicar que o homicídio indiscriminado, o sofrimento gratuito, a violação generalizada dos direitos humanos nos interpela necessariamente como seres humanos. Mas posso acrescentar, para os que procuram factos de mais directo impacto, que o nosso país (e a Espanha, isto é, a península Ibérica) está nos planos de restauração do califado do EI. Paralelamente, e com potencial impacto mais próximo no tempo, o EI tem-se vindo a introduzir no mundo ocidental com pequenas células capazes de morte cega e indiscriminada, para fazer prevalecer os seus intentos, à recepção de qualquer comando. Se um dia essas células receberem uma ordem simultânea para atacarem os vários países ocidentais onde operam, o impacto será de difícil mensurabilidade.

E podemos, hoje, nós, aqui, fazer algo para contrariar este perigo…? São muitos os jovens das nossas comunidades ocidentais que aderem ao EI pelo que certamente há muito por fazer entre nós ao nível da educação para os valores e de ocupação saudável dos nossos jovens; mas há também que acompanhar os que nas nossas comunidades disseminam a violência e formular políticas que contenham e tendam a suprimir as palavras (e acções) de ódio.

Apenas considerando os aspectos focados, os desafios para 2015 são enormes. Que nos votos de um Feliz Ano de 2015 se inclua a força para ajudarmos a vencê-los.

Patrão Neves
Professora Universitária

 

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