Opinião: Um português ilustre e um amigo dos Açores

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No termo do segundo mandato de Durão Barroso como Presidente da Comissão Europeia, os mais mediáticos comentadores políticos nacionais não rejeitaram a oportunidade para, mais uma vez, e agora numa perspectiva global, avaliarem a prestação do português que mais elevadas funções exerceu na cena internacional e durante mais tempo. Lamentável e quase invariavelmente fizeram-no com os “óculos” do despeito que sempre colocamos para apreciar os que entre nós se destacam. Podemos enaltecer um jogador de futebol, um fadista ou um chefe, mas não um político mesmo quando este não só prestigiou Portugal no mundo, mas ajudou o país numa situação nacional de gravidade extrema e num contexto europeu também muito difícil.

Posso falar com propriedade de uma experiência de cinco anos de relacionamento com o Presidente da Comissão Europeia enquanto deputada ao Parlamento Europeu: em todas as questões relativas aos Açores que lhe apresentei contei com o interesse, sensibilidade, acompanhamento e intervenção de Durão Barroso, através de um acesso fácil que sempre manteve com todos os eurodeputados portugueses. Esta minha experiência individual foi também certamente a do Governo regional e nacional e de tantos outros actores políticos que confundiram como exclusivamente suas as victórias que Durão Barroso decisivamente facilitou.

A história fará certamente justiça a Durão Barroso que liderou os destinos da União Europeia na mais grave crise da sua história, uma crise que não originou mas que teve que gerir. É bom lembrarmo-nos que houve um tempo, longo e não muito distante, em que se duvidava se a União se iria sobreviver, com a certeza da saída da Grácia a que se seguiria indubitavelmente a de Portugal, e com o fim do euro. Mas, não! A União permaneceu intacta e o euro manteve-se. A União Europeia alargou-se de 15 para 28 Estados-membros sob a presidência de Durão Barroso e o número de países da eurozona também aumentou para 18. A União Europeia, entretanto, muniu-se dos instrumentos contra a ameaça de bancarrota que antes não tinha, realizou uma reforma constitucional profunda, reforçou os poderes da Comissão e do Banco Central Europeu, viu-se mundialmente reconhecida como espaço de Paz, com o Nobel que lhe foi atribuído. Muito se avançou e um português teve mérito directo no reforço da Europa.

Ficou muito por fazer…? Sim, sem dúvida, mas é suposto os comentadores saberem que todos os passos europeus exigiram consensos alargados (a 28 Estados-membros) e a várias instituições como seja o Parlamento Europeu. Além disso, a União Europeia não dispõe de fontes de autofinanciamento pelo que depende sempre dos Estados-membros contribuintes líquidos. Esta é mais uma variável que desequilibra os equilíbrios que se procuram. O que se fez demorou demasiado tempo o que comprometeu a sua eficácia? Sim, sem dúvida, mas é suposto os comentadores saberem que os compromissos que se constroem, no contexto complexo descrito, exigem muito, muito tempo, depois da proposta oportuna da Comissão Europeia.

A história fará certamente justiça a Durão Barroso, mas eu quero desde já publicamente agradecer-lhe o que fez por Portugal e muito em particular pelos Açores.

M. Patrão Neves
Professora Universitária

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