António Morais: bonecreiro lagoense partiu mas deixou a sua obra

Roberto Medeiros

Faleceu ontem, 6 de abril, o bonecreiro mais antigo, à data, no Rosário da Lagoa, António de Morais. Eu conheci-o quando em 1990 iniciei minha atividade autárquica como vereador da cultura da Câmara Municipal de Lagoa. Acompanhei o seu percurso como artista bonecreiro durante mais de 20 anos. Aprendi muito com este bonecreiro e com todos os outros bonecreiros da Lagoa, pois acompanhava a sua atividade e ajudava-os com o propósito de promover e divulgar a sua arte, na Lagoa, nos Açores, no continente e nos EUA e Canada.

Como se sabe, o fabrico de bonecos de presépio nos Açores é uma tradição da Lagoa, desde 1862. 

António Morais a pintar uma das suas figuras do Presépio da Lagoa  © D.R.

António Morais era perfeito, na sua arte de esculpir ou moldar as figuras do presépio da Lagoa. Foi com orgulho que levei comigo, na minha qualidade de vereador, às feiras tradicionais do Dia de Portugal em New Bedford e várias outras cidades dos EUA.  Nas Festas do Divino Espírito Santo em Fall River foi mesmo homenageado pela comunidade emigrante no Kennedy Park, rodeado de pessoas que o estimavam naquele país.

 Morais, esteve ainda comigo, com os seus bonecos na State House em Boston, no Museu da Baleia de New Bedford e em muitos outros eventos promocionais da atividade bonecreira da Lagoa. Quando já não podia, nem trabalhar nem viajar, adquiri a sua última coleção, a melhor de todas, com algumas centenas de bonecos, para poder continuar a realizar exposições do Presépio da Lagoa pelas Comunidades Emigrantes. Foi isto possível através dum patrocínio do empresário pauense José Manuel Almeida Sousa, emigrado nas Bermudas e proprietário do Posto de Abastecimento de Combustíveis da Vila de Água de Pau. 

Esta coleção maravilhosa tem estado em exposição desde 2014, até hoje, no natal, na Portugalia Marketplace, estabelecimento comercial de Fernando Benevides, na cidade de Fall River, EUA. 

Numa entrevista que ele deu a uma jornalista nos EUA, eu publico a seguir, e, os lagoenses e quem se interesse pela arte bonecreira da Lagoa, poderá ficar a conhecer melhor esse grande artista.

 

Entrevista a António Morais, nos EUA

Homenagem ao bonecreiro lagoense António Morais nas Festas do Divino Espírito Santo em Fall River © D.R.

[“A minha paixão por bonecos de presépio começou na cerâmica, hoje é a Cerâmica Vieira, antes era do senhor Lima. Fui para lá trabalhar com 11 anos. É claro que a gente lá não fazia esses bonecos, que nós chamamos “tarecos de presépio”, fazíamos outras peças grandes de loiça, que hoje em dia já não se fazem por causa do plástico, que veio dar “descaminho” daquela loiça toda. Ganhávamos 4 escudos por dia, mesmo no tempo era uma miséria. Assim tivemos que nos virar para outro lado, trabalhar para outro sítio, tirar moldes em casa. Esses moldes que a senhora está a ver aí, comecei a trabalhar e daí para cá nunca mais parei. Mas antigamente era muito difícil, hoje em dia a gente chega à “Papelaria Xavier” e vamos buscar o barro que queremos, antigamente não havia este barro na “Xavier”, tínhamos que o ir buscar à Ribeira Grande. Tínhamos que tirar o barro que ficava lá no fundo, primeiro tínhamos que tirar a terra que ficava por cima para podermos encontrar o barro mais fino. O barro era seco ao sol e depois era picado dentro de umas vasilhas, de um bidão ou de outro recipiente qualquer, para ficar como uma papa, uma massa. Depois ia ao sol até ficar no ponto que queríamos para o trabalhar.

Não havia forno eléctrico, o boneco não era cozido, as tintas eram compradas em pó (hoje em dia não sei se ainda estão à venda), e eram feitas com goma arábica, uma espécie de cola. Era misturada com água a ferver, ficava de um dia para o outro, no outro dia dava a cola. Essa cola depois secava e ajudava a colar a tinta, mas de qualquer maneira, quando a gente pegava no boneco (principalmente nas cores fechadas, fortes como o azul e o preto) ficávamos sempre com as mãos sujas. Hoje em dia pegamos nestes bonecos e não há problema nenhum, já são cozidos, é outra coisa.

Os pincéis eram outro problema sério. Os primeiros pincéis que eu fiz (não havia dinheiro para comprar pincéis daqueles de artista porque eram muito caros) ia ao galinheiro tirar penas às galinhas, depois cortava a parte mais grossa da pena e a mais fina fazia de pincel, outro material utilizado era cabelo de rabo de cavalo. A gente fazia uns pauzinhos com um canivete e fazia os pincéis grossos, não dava para fazer pincéis como aqueles que compramos hoje em dia, que dão para fazer pintura com muita mais facilidade, mas tínhamos que nos desenrascar.

Havia muita gente a vender bonecos no “Mercado da Graça”, ao sábado ia vender bonecos e ás vezes, encontrava 7 ou 8 pessoas a vender praticamente os mesmos bonecos, quase todos iguais. E muitas das vezes tudo o que levávamos para baixo vinha para cima. Não havia essa grande vontade, que existe hoje em dia, de comprar bonecos. Hoje até para o estrangeiro vendemos bonecos. Antigamente uns iam vender bonecos pelas portas, outros no mercado e alguns conseguiam lojas na cidade, e isso já era uma grande vantagem porque estava sempre seguro. E é isso.”

Depois quando o senhor Roberto Medeiros entrou para a Câmara da Lagoa como vereador da cultura, os bonecreiros tiveram mais apoio e ele passou a levar-nos consigo para a América para as feiras do Dia de Portugal em várias cidades e foi então que os bonecos de presépio da Lagoa passaram a ser mais conhecidos e vendidos. Eu levei caixas e caixas de bonecos de presépio da Lagoa para a América. Agradeço ao senhor Roberto Medeiros que no Kennedy Park em Fall River preparou com os nossos emigrantes uma homenagem que me fizeram, durante as Festas do Espírito Santo.”]

Categorias: Opinião

Comentários

  1. Artur medeiros verdinho 7 Abril, 2022, 19:39

    Antonio Augusto Morais um grande amigo meu entramos juntos para a mesma escola e saímos juntos e entramos juntos para tropa assim como entramos juntos para a mesma fabrica do Senhor Lima em 1959 aos 11 anos temos a mesma idade nascemos em 1948 trabalhanos juntos na mesma fabrica por anos imigrei para a America ele ficou por lá quando vizitava a Lagoa era a primeira coisa que ultimamente fazia o ia vizitár a casa já estava muito doente fazia intençáo de o vizitár este ano outra vez mas o destino nao quiz que desta véz o vezitá-se,agora espera por mim noutro mundo para voltar-mos a fazer tudo de novo mas num outro Mundo. que te posso dizer meu amigo que a paz esteja contigo onde quer que estejas

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