Amigos do Calhau: como podemos ficar amigos de um espaço

O calhau da Atalhada, no Rosário, é visitado, diariamente, por mais de uma centena de pessoas no verão. Várias unem-se para proteger este local que é casa de inúmeras espécies marinhas e endémicas

Associação nasce em 2007 com alguns residentes das ruas circundantes ao calhau © MARIANA LUCAS FURTADO/DL

Cacilda e José Pedro Medeiros são o casal que mais facilmente irá encontrar no calhau da Atalhada. É neste pequeno lugar, na freguesia do Rosário, na Lagoa, que se encontram umas pequenas poças onde o negrume das rochas de origem vulcânica se funde com um mar claro e cristalino. Com um fundo transparente, é possível observar toda uma diversidade de espécies marinhas. Se tiver sorte, talvez encontre, até, uma estrela do mar. Um lugar tão único naturalmente gera a simpatia de quem o frequenta. E este grupo mostra-nos isso: como podemos criar amizade por um lugar. Assim nasce, em 2007, a Associação Amigos do Calhau (AAC). 

São seis dezenas de pessoas que constituem esta associação ambiental sem fins lucrativos. Ao Diário da Lagoa (DL), garantem que sempre se desviaram de apoios governamentais, já que só assim conseguem manter a sua autonomia e independência. 

O projeto começou com alguns residentes das ruas circundantes ao calhau. Depressa alargou a sua intervenção a outras zonas balneares e hoje opera em toda a orla costeira da maior ilha dos Açores.

“A Associação foi criada aqui, mas não se reduz a este espaço. Nos nossos estatutos,  temos a defesa da orla costeira da ilha de São Miguel toda. A ideia original era criar um grupo que fosse «uma semente». E que depois se criasse outro grupo nos Mosteiros, um no Nordeste, na Maia, onde também há umas poças maravilhosas. Que as pessoas começassem a cuidar mais desses lugares”, começa por explicar José Pedro Medeiros. 

No lugar da Atalhada, a iniciativa partiu de um grupo de amigos: “aconteceu neste lugar porque era o nosso ponto de encontro. Vínhamos aqui para tomar banho e vimos que estava muito sujo. Decidimos organizar uma limpeza. Depois surgiu a ideia de fazer algo com os miúdos aqui da zona. Hoje em dia ainda vêm para cá. Eles aprenderam a nadar aqui, e os filhos deles também”, conta o representante da AAC.

Lugar atrai geração atrás de geração

José Pedro acredita que a calma e tranquilidade, a par da manutenção constante que lá é realizada, atraem os banhistas. Por ser um local “familiar”, onde as crianças podem estar a brincar na água, sem muita confusão, e outras pessoas conseguem estar simultaneamente a ler, torna-se um espaço polivalente e agradável. Espaço este que começou a fazer parte de alguns roteiros turísticos da ilha.

O responsável fala abertamente sobre várias pressões que chegam à AAC no sentido de melhorar e aumentar o espaço que começa a ser pouco para as 150 pessoas que por lá passam num domingo normal de verão. Ainda assim, atenta: “criar uma zona com muito cimento vai desvirtuar este espaço. Se ampliarmos muito a zona de solário, as pessoas deixam de ter espaço para ir para a água. Ou a pessoa vai lá para fora para o mar quando ele está em condições, ou então estas duas poças que tem são muito pequenas. Uma das lutas que temos tido é para que as pessoas não usem sabão nem champô no duche, mas infelizmente não temos conseguido. Isto é relativamente perto e as águas acabam por chegar ao mar.

Durante todo o ano, o representante da AAC ocupa os seus tempos livres com a manutenção do espaço. Além da recolha de lixo, que confessa fazer diariamente, encarrega-se da remoção dos musgos que se formam no caminho que dá acesso à poça maior. “Não gosto de ver as pessoas escorregarem. Principalmente no inverno, quando não há muito sol, cria limos com muita facilidade”, confessa. 

“Uma das funções que me é incumbida, a nível da manutenção do espaço, é também remover os limos, que combatemos com cal. É distribuída à mão, e depois, com uma vassoura, como se fosse pintando, vou varrendo [o passeio]. Faço sempre quando não há pessoas e na maré vazia, à noite. De verão, faço uma vez por mês. No inverno, faço menos, de dois ou três em três meses. Também há menos pessoas. No verão há mais, e também para não se magoarem.”

“Muitas vezes são as autoridades que destroem o meio ambiente”

No ano passado, foi oficialmente inaugurado pela Câmara Municipal da Lagoa o passeio marítimo que liga o Largo do Cruzeiro ao Portinho de São Pedro. Contudo, bem antes da sua inauguração, há quase um ano, o movimento já era visível, e o passeio fez aumentar a afluência de pessoas ao calhau da Atalhada. A própria construção já tinha sido contestada pela AAC. A associação opôs-se ao modo como a obra foi conduzida, por provocar a destruição das escoadas lávicas desde o Observatório Vulcanológico até ao Largo do Cruzeiro. “Enquanto a parte que vai desde o Portinho de S. Pedro até ao Observatório Vulcanológico era já um aterro, do observatório até aqui era uma zona natural”, explica José Pedro Medeiros.

O crescente número de pessoas que visitam agora o calhau não é, no entanto, e por enquanto, motivo de preocupação, uma vez que, como garante José Pedro, “este é um espaço de toda a gente”. A preocupação é outra e é dirigida às autoridades. O responsável alerta para a possibilidade de se repetirem erros no concelho vizinho: “há um plano que vai transformar toda a zona litoral da Ribeira Grande que nós também estamos a acompanhar”.

“Infelizmente, muitas vezes são as autoridades que destroem o meio ambiente”, diz José Pedro. “Na Ferraria, neste momento, estão a destruir parte do Pico das Camarinhas [na freguesia dos Ginetes] que é um monumento natural regional para fazer um parque de estacionamento ilegal”, alerta José Pedro. Explica ainda como a solução encontrada pela secretária do Turismo, Berta Cabral, e o secretário do Ambiente, Alonso Miguel, serviu para “encobrir” a construção. “Emitiram um despacho retroativo a 2021 depois de o Pico estar estragado. Quando se faz uma coisa destas, é um descrédito total. Acho que ninguém pode acreditar que alguém aja por bem numa situação destas, em que está a cometer uma ilegalidade, e, para encobrir essa ilegalidade, vai promulgar um despacho retroativo para dizer que, a partir daquela altura, passava a estar legal. Isto é completamente absurdo, não sei se se passará em mais algum lugar”, observa.

Num mundo perfeito não são precisas associações

É com o intuito de combater e ajudar a travar projetos como estes que a AAC se mantém no ativo. José Pedro acredita que há sempre trabalho a ser feito, porque “num mundo perfeito não são precisas associações”. E enfatiza que “é preciso apostar na educação e saber que tudo aquilo que se deixa em terra vai parar ao mar.

Defender a causa ambiental é uma bandeira que deve estar ao alcance de todos. Na opinião de José Pedro, “qualquer pessoa que goste de mar pode ser um amigo do calhau. Quem vem tomar banho deveria zelar pela proteção do local, acho que se nota cada vez mais isso nas pessoas”. Um dos objetivos da AAC é manter a flora endémica do local. No calhau da Atalhada é possível encontrar espécies como o junco, a erva-leiteira e o limónio. “Só neste espaço temos quatro espécies endémicas. Felizmente, esta parte conseguimos manter, mais atrás já são canas e espécies invasoras.”

Mariana Lucas Furtado

Categorias: Reportagem

Deixe o seu comentário