
André Silveira
A noite eleitoral das Legislativas de domingo trouxe algumas poucas confirmações e uma enorme surpresa: a dimensão do crescimento do Chega, que se tornou a segunda força política nacional, com resultados impressionantes nos Açores, contrariando todas as previsões e sondagens. Olhando para os dados históricos, antecipava-se já que o partido poderia alcançar um resultado em alta, mas nem os mais entusiastas, nem os mais pessimistas, previam que atingisse esta expressão, em particular nos Açores após o triste escândalo que envolve o deputado eleito em 2024 e artigos de viagem. Mais desconcertante ainda foi perceber que, ao contrário do que se dizia, este crescimento não se fez à custa da abstenção, que, aliás, aumentou, mas sim de votos captados diretamente aos partidos tradicionais. PS e PSD perderam terreno, influência e ligação à realidade social e política, e o mapa eleitoral tingido de azul escuro deixa avisos sérios a quem os quiser ler.
Começando pelo PS. Os resultados de ontem são uma catástrofe política, daquelas que não podem passar sem consequências, nem cujas feridas não deixarão profundas cicatrizes. O partido, que há muito se tornou refém das suas próprias estruturas e interesses internos, paga agora o preço de anos de arrogância, de escândalos sucessivos e de uma governação distante da realidade das pessoas. Não basta mudar de líder ou fazer um congresso. O PS precisa de uma verdadeira renovação e refundação se quiser voltar a ser relevante. Cá e lá. Sendo que o risco da irrelevância é real.
O PSD, apesar de ter eleito mais um deputado devido às idiossincrasias do método de Hondt, vive uma situação embaraçosa. Perde votos em toda a linha, perde em freguesias que historicamente controlava e, mais grave, fica atrás do Chega em dois concelhos Açorianos. Em São Miguel, o cenário é particularmente preocupante. Apesar de estes serem resultados de umas legislativas nacionais, e de não se deverem tirar conclusões diretas para o panorama regional ou autárquico, há sinais que não podem ser ignorados. O mapa de São Miguel pintado de azul escuro é um aviso claro de que os partidos ditos tradicionais estão a caminho da irrelevância se não se souberem renovar e, sobretudo, se não começarem a falar a sério para os jovens.
Em São Miguel em particular, a implantação do Chega é surpreendente, não apenas pela expressão que atinge, mas pela forma metódica e persistente como foi construída. Feita através de políticas de base pura e dura, rua a rua, freguesia a freguesia, com candidatos e estruturas locais a assegurarem o trabalho de proximidade que PS e PSD abandonaram há anos. O PS, preso a uma estrutura em ruínas no pós-24 anos de poder absoluto, sem militância ativa e desmobilizado. O PSD, refém de lideranças incompetentes e incapaz de perceber o valor da política de proximidade. Onde uns desapareceram, outros ocuparam o espaço. O resultado está à vista.
Basta ouvir as reações no dia das eleições para perceber que persistirão em negar a realidade, agarrados a uma narrativa de negação que culpa fatores externos pelo desastre eleitoral, ignorando responsabilidades próprias. Reduzir este crescimento do Chega a um mero fenómeno de protesto, ou sugerir que os eleitores não sabem em quem votam, é não apenas um insulto à inteligência coletiva, mas também uma expressão de arrogância política que só contribuirá para aprofundar o fosso entre eleitos e eleitores.
Uma nota positiva para a Iniciativa Liberal, que cresce e consolida a sua posição como quarta força política. É verdade que continua a ser um partido muito urbano e concentrado em algumas ilhas, mas o crescimento consistente mostra que há espaço para um discurso alternativo, liberal nos costumes e na economia. Falha, no entanto, em apresentar um projeto verdadeiramente regional e em dialogar com o eleitorado fora das cidades principais.
Estas eleições deixam um aviso claro: quem não se renovar, quem continuar a ignorar o descontentamento popular, quem persistir nos velhos vícios da política insular, arrisca-se a tornar-se irrelevante. Os partidos tradicionais ainda vão a tempo, mas a janela está a fechar-se rapidamente. Nos Açores, onde o descontentamento é cada vez mais visível, ignorar este sinal seria um erro de consequências históricas.
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