Água de Pau tem panorâmicas da Serra… ao Monte Santo

Roberto Medeiros

Depois da Exposição do Presépio da Lagoa em Fall River encerrada, de ‘teste positivo’ na mão e quarentena garantida, fechado em casa de familiar em Dartmouth, que mais me ocorreria senão escrever sobre a minha nobre vila de Água de Pau, se é nela que está a fonte de energia que me move?

© ROBERTO MEDEIROS

Este monte tem ou é conhecido, desde o povoamento de Água de Pau, por várias denominações:
Pico da Figueira – Assim conhecido por ter existido no fundo e centro da cratera extinta uma figueira plantada por um dos primeiros povoadores e proprietário que embora a tenha plantado, viria a suicidar-se nela. Ainda até há poucos anos continuava a estar lá uma figueira, embora não acredito ser ainda a mesma, claro. Devendo-se a explicação ao facto das figueiras se desenvolverem bem naquele lugar e em toda a Caloura.
Pico do Concelho – Por ter sido por muito tempo propriedade do antigo concelho de Água de Pau.
Pico do Monte Santo – Após a menina Joana ter se avistado com Nossa Senhora em 1918, os seus pais erigiram esta ermida entre 1928 e 1931.
Pico da Merda-Seca – Porque consta na terra que segundo antigos testemunhos, algumas das suas gentes, na impossibilidade de aliviarem suas necessidades, se deslocavam ou aproveitava a ocasião quando ao monte iam com seus rebanhos de cabras.
Pico onde a “Porca Furou o Pico” – Onde segundo a antiga lenda, um casal que tinha no curral do seu quintal, nas traseiras da sua casa, na encosta do Pico do Concelho, uma porca em vias de dar criação uma prole de marrãozinhos. Decorriam em Água de Pau, as Festas da Senhora dos Anjos, em agosto. Os cuidados eram muitos, tidos com a porquinha, pois contribuiria muito para a economia da família, pensavam, enquanto gozavam o arraial da festa. Mandaram um dos filhos a casa vigiar a porquinha, não fosse ela precisar de cuidados. Ao chegar ao curral, aterrorizado, reparou que a porquinha tinha fugido, derrubando a fraca parede de toscos paus. Subiu a encosta e depressa estava no cimo do Pico onde procurou até anoitecer, pela porquinha, sem a encontrar. Finalmente quando a encontrou, encontrava-se a mesma já do outro lado do monte, dentro de uma gruta, que o rapaz deduziu tratar-se dum túnel furado pela porca desde o seu quintal. Foi dar a novidade aos pais, procurando-os pelo arraial da festa, gritando a “ a porca-furou-o-Pico!” … “a porca-furou-o-Pico!”. Nesta altura a história serviu de chacota para os naturais da terra, durante muitos anos. Assim ,sempre que uma camioneta de excursão atravessava Água de Pau, eram baixadas as janelas e gritavam os passageiros: – “Foi aqui…Foi aqui…que a porca furou o Pico?”As respostas não eram agradáveis e nem demoravam. Saíam à velocidade de “canhão e palavrão”…com sequência de cenas desagradáveis e manguitos de estremecer o chão e os quatro cantos da praça de Água de Pau, na passagem do autocarro com os passageiros, debruçados na janela e apontando com o dedo indicador para o chão…”foi aqui…foi aqui? Há quem interprete esta lenda com ofensa à terra e às suas gentes. No entanto, encontramos nalgumas quadras do folclore pauense a história comentada à laia de desgarrada, constituindo já parte da herança cultural e etnográfica desta terra. Citarei duas quadras só: “Eu fui a Água de Pau E, o vinho não era mau, sete vezes molhei o bico. Diga-me lá tia Maria, se foi nessa freguesia, Que a porca furou o Pico?” E a resposta era assim: “Se a porca furou o Pico, Vós, tendes muitaa razão Falta uma afocinhadela da porca da sua mãe!” Para mim, quando cresci, mesmo ali em frente ao Pico do Monte Santo, na Rua da Trindade, com os meus amigos, ia ao pico, pelo Natal, para procurar e trazer pedras vermelhas e cascalho vermelho miudinho para decorar o Presépio. Doutras vezes, também ia para brincar com alguns amigos. No entanto, também ia ao pico por um outro motivo, mais sério. Poucos se lembrarão disso já, mas, a minha geração e a anterior à minha, lembra-se de certeza. Quando tínhamos um exame difícil ou alguma dificuldade que queríamos ver ultrapassada, então íamos ao pico, ao lugar onde a menina Joana Canto tinha-se encontrado com Nossa Senhora. Havia no lugar um pedregulho “especial” de pedra-pomes muito branca”. Então retirávamos uma pedrinha pequenina ao pedregulho e trazíamos para casa. Colocávamos debaixo da cabeceira e rezavámos a nossa senhora. Era uma maneira que tínhamos encontrado, para sermos ouvidos, ou tidos mais em conta, por Nossa Senhora. Dava sorte, pensávamos. Enfim, éramos muito crentes nisso e fazíamos isso num ritual de muito respeito, na altura.

A linda Vila de Água de Pau também tem…

© MÁRIO NELSON

Património Religioso: uma igreja (Nossa Senhora dos Anjos) e cinco ermidas (do Monte, do Santiago, Monserrate, do Convento da Caloura e a de São Pedro Gonçalves de Telmo no Cinzeiro da Caloura). Tem um Núcleo Museológico: Mercearia Central, Casa do Pescador, Museu das Lavadeiras e o Etnográfico nos baixos da Junta de Freguesia. Tem 20 fontenários, com quatro em funcionamento, 24 horas por dia, há mais de 100 anos (N.S. dos Anjos, Praça, S.Pedro e Canadinha do Porto). Tem uma rede de Túneis de Lava ainda por explorar. Tem três excelentes nascentes de água na Serra de Água de Pau: 1) – a nascente da Ribeira do Lance, que abastece Ponta Delgada 2) – a nascente dos Lourinhos que abastece a Lagoa [Santa Cruz, Remédios Cabouco Rosário], 3) – a nascente do Espigão que abastece a Vila de Água de Pau. Tem duas praias na Baixa da Areia e as zonas balneares do Portinho da Caloura e do Cerco (Poça das Maresias). Tem ainda entre muitas coisas, o orgulho do seu povo, que muito agradece à sua Senhora dos Anjos por nesta terra terem nascido.

Crónica publicada na edição impressa de fevereiro de 2022

Categorias: Opinião

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