A Tutoria Pedagógica – Diálogos fascinantes que lapidam diamantes!

Foto: DR

O acompanhamento dos alunos, por parte dos professores às várias disciplinas, ao longo de um triénio, a chamada continuidade pedagógica, revelou-se como uma estratégia de grande utilidade na aprendizagem. Este modelo contribuiu também, como uma mais-valia, para a implementação e desenvolvimento da atividade da Tutoria – um projeto pedagógico que realizei, na nossa região, em 1999 e que foi aprovado e subsidiado , pelo Instituto de Inovação Educacional.
No ano letivo de 2003, sendo docente de quadro de nomeação definitiva da Escola Secundária de Lagoa, dinamizei, pela primeira vez, a atividade da Tutoria nesta escola.
Durante dezasseis anos da minha docência na ESL, a tutoria, funcionou como um apoio personalizado, facultado aos alunos, tanto a nível do seu desenvolvimento pessoal, como também no seu desempenho escolar. Os alunos-alvo da atividade, receberam apoio escolar, em que lhes foram ensinados métodos de estudo, individualmente. Em regime paralelo, o professor-tutor dispensava aos jovens, aconselhamento pessoal, personalizado, focado no desenvolvimento juvenil de competências cívicas e éticas, mediante a técnica do diálogo positivo, entre o aluno e o tutor- orientador, em regime de entrevista semanal. O contato estrito (também em entrevista tutorial) com o encarregado de educação do aluno e com os elementos do conselho de turma, integraram ativamente a dinâmica desta atividade pedagógica.
Como membro do Núcleo de Inserção Social de Lagoa para o setor da Educação da ESL,(2004) foi-me possível sinalizar, também na qualidade de tutora, alunos e encarregados de educação, provenientes de agregados familiares socialmente carenciados. Na realidade, ao longo destes dezasseis anos letivos, a tutoria assumiu o papel de uma base segura de lançamento, na gestão da vida pessoal e sócio-profissional de muitos jovens os quais, seguramente, sem este apoio, muito difícilmente teriam conseguido atingir patamares de sucesso a nível mínimo (certificado do 9º ano) , médio (certificado do 12º ano ) e máximo (curso universitário).
A tutoria revelou-se como um trabalho docente, muito útil e gratificante, para todos os elementos intervenientes, sobretudo pela resultado positivo de sucesso, tanto a nível cognitivo, como no domínio sócio-afetivo dos alunos que dela beneficiaram.
No meio de tantas experiências pedagógicas – vivências inesquecíveis, recordo-me do caso da Soledade (nome fictício).
A Soledade foi-me apresentada pela diretora de turma, no 9º ano. Uma jovem de olhos negros grandes e nostálgicos, que apesar da sua candura, espelhavam tanta ansiedade, como determinação. A jovem contou que vinha de longe. Saía de manhã, no autocarro e deixava a avó, já cuidada por ela, numa cadeira de rodas. A mãe abandonara-a, ainda pequena e o pai tinha partido para longe, sem notícias. Fora criada pela avó, por quem, visívelmente, nutria especial carinho.
Começamos a trabalhar em equipa com outros agentes sociais, para que esta jovem lutadora, pudesse usufruir dos apoios previstos, somados ao apoio total da equipa docente e da tutora, disponível para o apoio integral no trabalho escolar da jovem Soledade e sobretudo na disponibilidade permanente, para a escuta atenta e compreensiva dos “desabafos” da sua alma adolescente. Que bem lhe fizeram! Progressivamente lapidavam-se constrangimentos e ressurgia a confiança!
Atualmente, a Soledade é licenciada, com mestrado. Trabalha numa empresa e é formadora. Continuamos em contacto, com a amizade de sempre, um sentimento nascido da partilha dos saberes e alicerçado no trabalho e no esforço comuns , bem como na atitude determinada de nunca dizer não a um projeto positivo de vida!

Maria Luísa Dias Pereira, Professora e tutora pedagógica

(Crónica publicada na edição digital de maio de 2020)

Categorias: Opinião

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