“A melhor foto vai ser a que vou fazer amanhã”

De mochila às costas, em busca das melhores histórias: a lente de Rui Soares mostra os Açores ao mundo © ANDRÉ DIAS NOBRE

Rui Soares, 42 anos, é fotógrafo profissional. Trabalha para jornais como Público ou Observador mas também para a agência de notícias internacional Reuters e France Press. Viveu largos anos em Lisboa mas um dia sentiu que tinha de regressar a São Miguel. Nasceu e cresceu em Santa Cruz, na Lagoa. Já esteve em todas as ilhas açorianas mais do que uma vez e diz ter amigos em todas. Na conversa que teve com o DL, num conhecido café do centro da cidade, foi interrompido várias vezes por quem o conhece. Dois amigos, sentaram-se à mesa connosco, e atrasaram o início da entrevista — que se prolongou por uma manhã inteira — mas por bons motivos. É o próprio Rui quem admite que faz questão de tomar café na rua porque é lá que muitas vezes encontra as suas melhores histórias

Rui Soares, 42 anos, nasceu e cresceu em Santa Cruz © ANDRÉ DIAS NOBRE

DL: Como surge o interesse pela fotografia?
Tudo começa por causa de um amigo meu aqui da Lagoa. Na altura era comercial [imobiliário], vendia casas e estava a ver um rali com o Álvaro Medeiros. A culpa foi dele, no fundo. Eu estava aborrecidíssimo a ver o rali, estava a chover, e eu estava a levar uma seca tremenda e ele tinha uma câmara, uma Fujifilm bridge. Eu disse-lhe, “empresta-me isso para eu brincar um bocadinho”. Fiquei apaixonado pela questão de frisar o momento, comprei-lhe a câmara no mesmo dia e foi assim.

DL: Foste estudar para Lisboa?
Sim, para o Instituto Português de Fotografia, arranjei uma casa ao lado da escola. No segundo ano, já dava aulas lá na escola também, eles convidaram-me, e comecei assim.

DL: Como decides regressar aos Açores?
Foi das melhores decisões que podia ter tomado na vida. Olhando para trás, na altura, não me apercebi muito bem porque estava a tentar fazer carreira cá em São Miguel. Achava que os Açores podiam ser um bom trampolim para a minha carreira. Estava um pouco mais longe de tudo o que se estava a passar. Quando dei por mim, num dia estava a fotografar o Passos Coelho na Assembleia. No dia a seguir estava a fotografar o nascer do sol nas Furnas. E aí percebi que se calhar o nascer do sol nas Furnas poderia ser um bocadinho mais interessante.

DL: Ganhaste alguns prémios no entretanto?
Sim, isso foi mais enquanto fotojornalista, em Lisboa.
Ganhei um prémio de fotografia, e acho que no fotojornalismo até há uns prémios interessantes. Uma das coisas que me deu mais orgulho foi estar a fotografar cá no furacão Gordon, estava a trabalhar com uma agência, a Reuters. Lembro-me que a minha foto foi foto da semana na NBC, nos Estados Unidos.
O prémio que tive foi com um trabalho com uma colega minha, para o Público. Credo, já foi há tantos anos que não me lembro bem. O prémio foi conjunto, foi prémio Reportagem, não foi prémio Fotografia.

DL: Se tivesse de escolher, escolhias trabalhar em estúdio ou no terreno?
No terreno, no terreno. Posso relembrar, por exemplo, agora em São Jorge, durante a crise sismovulcânica, a maior parte do meu tempo foi falar com pessoas, inteirar-me do que se estava a passar e tentar conhecer pessoas.

DL: Como foi cobrir a crise sismovulcânica em São Jorge? Decidiste ir para lá?
Eu trabalho com alguns jornais e agências e quando aquilo começou a acontecer começámos a ver que poderia ser uma coisa bastante séria. Eu estava a rezar para que nada acontecesse. Foi numa quarta-feira. Tinha hambúrgueres para fotografar e só pedia a alguma entidade que não acontecesse nada. Era uma coisa que já estava programada, eu não podia dizer que não.
Depois quando cheguei ao aeroporto, na quinta-feira, logo de manhã, apanhei o presidente do Governo [José Manuel Bolieiro] e pensei: “ok, afinal não estou a chegar muito tarde. Se o presidente do Governo está a chegar agora, também estou a chegar numa altura boa”.

Dou muito valor
ao sítio onde eu vivo.
Vivo na Lagoa
e gosto muito de aqui estar.

 

DL: Foste com medo? Ou espírito de aventura?
Se me perguntassem se preferia ganhar um World Press Photo ou fotografar um vulcão nos Açores, toda a gente que me conhece minimamente bem sabe que eu iria responder, fotografar um vulcão nos Açores. E eu quero fotografar um vulcão nos Açores, não tiro isso.
No entanto, a minha perceção sobre um vulcão nos Açores mudou depois de eu estar lá. Agora quero fotografar um vulcão no mar [risos].

DL: Como foi trabalhar numa ilha com centenas de sismos por dia?
Não digo que foi o trabalho mais importante, mas se calhar o mais impactante na minha maneira de olhar para os Açores. Estamos habituados a “vivemos em cima de vulcões, mas nunca vai acontecer nada” e aquilo foi uma chamada para a realidade. Não dormia todos os dias no mesmo sítio. Devido a reportagem, tive de dormir numa Casa do Povo, também faz parte. Lembro-me que estava sempre com o cuidado de tirar os quadros do sítio onde ia dormir, dormia sempre vestido…

DL: Conheces todas as ilhas?
Conheço todas as ilhas, já estive nas ilhas mais do que uma vez. E tenho sorte, devido ao meu trabalho, de conhecer muita gente e ter feito muitos amigos nas ilhas todas. Acho que é um orgulho tremendo poder apanhar um avião hoje e ligar para alguém e dizer: “olha, vamos almoçar”.

DL: Qual é a ilha que mais gostas?
O Pico. Não sei explicar. Aliás, sei. Gosto da natureza daquela ilha.
Gosto do facto de ser uma ilha tão grande como São Miguel e ter só 15 mil pessoas. E tem aquela montanha, que para mim é uma coisa fantástica. Tenho bastantes fotografias lá. Chego a publicar fotos do Pico e tenho amigos que mandam mensagem e reagem ‘que seca, mais uma fotografia no Pico”, é verdade, isso acontece [risos]. É uma coisa que me fascina, a luz que está ali à volta, a forma como a montanha influencia a meteorologia daquele grupo de cinco ilhas. 

Aos 28 anos Rui decidiu largar a vida que tinha e regressou a Lisboa para estudar fotografia © ANDRÉ DIAS NOBRE

DL: Olhando para trás e para aquilo que já fizeste, que balanço fazes?
Nunca pensei muito nisso a sério. O melhor está para vir ainda. A melhor foto vai ser a que vou fazer amanhã, ou que vou fazer mais logo. O resto já passou. Para trás fica todo o caminho que foi feito para chegares aonde estás agora.
Também tive a sorte de ter uns pais que perceberam o que eu queria fazer, foi muito importante para mim.
A minha mãe chamou-me todos os nomes e mais alguns que ela nem sabia que existiam, quando eu, aos 28 anos, lhe disse “não dá mais, vou largar isto [Açores] e vou voltar a Lisboa”. Lembro-me ainda hoje, ela estava à minha frente e o meu pai estava ao meu lado. Teve de ser, era o que eu sentia que precisava de fazer da minha vida.
Só tenho uma foto emoldurada e pendurada num quadro em casa. Foi uma foto que o meu pai tirou quando ganhou um prémio na Nestlé. Eu lembro-me de estar lá com ele quando ele tirou aquela foto com a minha mãe. Estávamos lá de manhã, havia umas vacas para ele fotografar o nascimento de um bezerro, para um concurso de fotografia. Essa é a única foto que tenho em casa, impressa, porque realmente ele percebeu e depois disse: “vai, se precisares de alguma coisa estamos cá para te apoiar”. Ele compreendeu. E é a única foto que eu tenho em casa, e está no escritório, por isso vejo-a todos os dias. 

DL: E projetos para o futuro?
A junta de freguesia de Santa Cruz ligou-me por causa de um muro que existe aqui em cima. Querem fazer alguma coisa de arte ali. Eu dou muito valor ao sítio onde eu vivo. Vivo na Lagoa e gosto muito de aqui estar. Estava a pensar comprar casa em Ponta Delgada, surgiu uma oportunidade de ficar cá na Lagoa e não pensei duas vezes. Consigo estar um bocadinho mais perto dos meus pais. E isso dá-me um bocadinho de orgulho. A minha família vive ali à volta, a minha avó e bisavó viviam ali. O meu outro avô tinha um negócio naquele sítio.

Clife Botelho

Entrevista publicada na edição impressa de julho de 2022

Categorias: Entrevista

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