A Liberdade

Deram-me espaço para 3000 palavras, mas só me ocorre uma. Venho escrever sobre a LIBERDADE dado a proximidade à data que nos fez democracia e com  ela a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa. Foi a 25 do mês de abril, data em que os nossos pais e avós saíram à rua e colocaram cravos nas armas do exército português. Muitos filhos tinham tombado em guerras ultramarinas antes de 1974, um dos precedentes para a revolução deponente do regime ditatorial, de inspiração fascista, vigente desde 33. Os portugueses tentaram a liberdade e falharam muitas vezes. A situação do país era vergonhosa, a vários níveis. Nos finais de década de 60, o regime exilava-se, envelhecido, num ocidente de países em plena efervescência social e intelectual. Os vários conflitos forçavam Salazar e o seu sucessor Caetano a gastar uma grande parte do orçamento do estado na administração colonial e nas despesas militares. Estas razões associadas à opressão imposta, por  meio  da PIDE, especialista em tortura, humilhação, perseguição e em riscar versos, textos e imagens a lápis-lazúli, impulsionaram os maiores amantes da liberdade a afinarem a imaginação e criatividade, a agruparem-se, a organizarem-se e a fazerem acontecer. Menciono, por isso, a açoriana Natália Correia como o mais belo exemplo desta soberba que, em  pleno patriarcado, ao seu mais alto nível,  foi  julgada por seus versos eróticos, considerados obscenos. Meras rimas, com palavras como vulva e língua, levaram-na à detenção. Há 50 anos a indecência de Natália, nascida na paradisíaca ilha de S. Miguel, despertou os portugueses  para  a ausência da liberdade, nas suas vidas. O livro Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica rapidamente esgotou e o resto é história. A ditadura estava gasta, o exército insatisfeito e as famílias estavam fartas de verem partir os seus, em busca da liberdade, da justiça e de melhor emprego. A 25, a liberdade esteve ao nosso alcance, ao alcance do povo que passou a ter de a governar e a governar-se.

«A maioria  das pessoas não  quer, realmente, a liberdade, porque a liberdade envolve responsabilidade e a maioria das pessoas tem medo da responsabilidade» – Freud

O que fizemos da liberdade não sei bem, mas Natália alertou para que não perdêssemos a Rosa Branca. É por isso mesmo que questiono: Sabemos o que é a liberdade? Sabemos usá-la, mantê-la, aplicá-la? Sabemos ser livres sós e em sociedade? Logo a seguir a 25, foi escrita e já reescrita a nossa Constituição para que não nos esquecêssemos daqueles direitos, deveres e responsabilidades, garantias desta Liberdade, fundada em 74.

Julgo importante esclarecer-me, devidamente, sobre a liberdade, não só a portuguesa, mas a liberdade mundial e, agora, bem ameaçada, a liberdade europeia.

Ora bem, segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, trata-se de  um  direito humano básico. Para os mais novos, a consolidação dos Direitos Humanos e a sua universalização deram-se após a Segunda Guerra Mundial, justamente como contraponto a esse período sombrio da humanidade, durante o qual muitas pessoas tiveram o seu direito à existência e à liberdade, completamente roubado. Logo, nos seus primeiros artigos, a liberdade é o enfoque principal.

No Artigo 1:
«Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.»

No Artigo 2:
«Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem  distinção  alguma, nomeadamente de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou outra, origem nacional ou social, fortuna, nascimento ou outro estatuto. Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autónomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.»

No Artigo 3:
«Todas as pessoas têm direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.»

Em jeito de reflexão, nestes 3 artigos, evidenciam-se algumas importantes palavras- chave em paralelo com a palavra escolhida, tal como a fraternidade, a igualdade, a razão, a dignidade.

Pelo mundo fora, a nossa palavra liberdade assume outros sons, vejamos: libertas, liberté, libertà, freedom, liberty, independence, svoboda, özgürlük, freiheit, lirinë, zìyóu, kebebasan, libertad… Algumas destas palavras pertencem a países opressores, tanto no seu território como fora do mesmo. Outros fundaram-se, remodelaram-se e revolucionaram-se sob a égide deste conjunto de letras. Em espanhol, a palavra Libertad significa a faculdade e o direito das pessoas de escolherem, responsavelmente, a sua própria maneira de agir dentro de  uma sociedade. A Libertad é um direito  humano básico, estado ou condição da pessoa que é livre, que não está presa ou sujeita à vontade de outrem, nem está constrangida por obrigação, dever, disciplina, etc. Em russo, Svoboda significa a possibilidade de manifestação da vontade do sujeito nas condições de consciência das leis de desenvolvimento da natureza e da sociedade. Svoboda significa, também, independência, isto é, a ausência de constrangimentos e restrições que vinculam a vida sociopolítica e as atividades de qualquer um: classe, toda a sociedade ou seus membros.  Parece-me que precisam, urgentemente, de rever esta significação, à luz da atual invasão, pois, se liberdade é a verdade que pregam, logo a independência que defendem, enquanto sinónimo de liberdade, está bem longe de ser verdadeira.

Liberdade é uma palavra poderosa. Basta pronunciá-la para enchermos o peito de ar e respirarmos mais levemente. Dizer liberdade dá alento. Um exemplo de liberdade é  a  libertação de um pássaro de uma gaiola. Um exemplo de liberdade é uma mulher recuperar a sua independência após o término de um casamento controlador.

Socialmente, não vivemos em ilhas despovoadas. Se eu fosse Robinson Crusoé, poderia fazer todas as coisas que são fisicamente possíveis para mim. Mas vivemos em sociedade. Na sociedade, somos — ou deveríamos ser considerados — livres, na medida em que as nossas ações não prejudicam os outros.

Religiosamente e, em particular, no Cristianismo, a Bíblia está cheia de alusões e  versos  à liberdade, incluindo esta brilhante passagem: «É para a liberdade que Cristo nos libertou. Permaneçam firmes, então, e não se deixem sobrecarregar novamente por um jugo de escravidão.» – Gálatas 5:1, nono livro do Novo Testamento. Não me contenho em transcrever outra citação: «Pois vocês foram chamados à liberdade, irmãos. Só não usem a liberdade como uma oportunidade para a carne, mas pelo amor sirvam-se uns aos outros.» –Gálatas 5:13. O Livro Sagrado é bem antigo. Os cristãos tiveram 2000 anos de oportunidade de aplicar, viver e usufruir da Liberdade, sem oprimir o outro.

A liberdade religiosa importa, por exemplo, no seguinte: se me apetecesse escrever sobre bruxaria, poderia fazê-lo, livremente, sem ser condenada à fogueira, por heresia. Até há bem pouco tempo, artistas como Madonna,  Miley Cyrus ou Sinead O’Connor foram, metaforicamente, crucificadas, pelas suas expressões artísticas, uma a usar soutiens em bico, a simular a masturbação em palco, outra a cantar e a chorar nua sobre uma bola demolidora e a última a criticar, ativa e radicalmente, o abuso sexual de menores, por outros que tinham  o dever moral, ético e espiritual de os protegerem. A esta liberdade junta-se, portanto, a da importante e descurada liberdade sexual feminina, um direito há muito oprimido e cuja liberdade tem sido contestada e  discutida, mesmo, entre mulheres.

«Numa sociedade mantida pela mentira, qualquer expressão de liberdade,  é  vista como loucura» – Emma Goldman

Mas nunca se sabe, porém, se somos assim tão livres. Bem avisa a premiada autora Margaret Atwood, nos seus clarividentes livros, que a liberdade conseguida pelas mulheres não foi,

ainda, plenamente conquistada. Para Atwood, a liberdade é relativa. A história de  Handmaid´s Tale passa-se no futuro. Devido à poluição do meio ambiente, a maior parte das mulheres tornam-se, neste conto, estéreis. Por conseguinte, as escassas férteis são, portanto, raptadas, escravizadas e prostituídas, para procriarem e darem os seus filhos contra a vontade. Todas as mulheres são impedidas de praticarem as suas profissões, tendo-lhes sido incutidas outros cargos, entre os quais a subjugação e  opressão das suas congêneres. Muitos não conseguem assistir à série televisiva ou ler o livro, até ao fim, mas creio que o que mais assusta nessa leitura não foram os absurdos que li sobre como as mulheres eram subjugadas, mas como alguns absurdos estão, por vezes, tão próximos da realidade, por mais que se trate apenas de uma história fictícia, nomeadamente, no que concerne ao tráfego humano.

«Só existe sentimento maior que o amor à liberdade: o ódio ao que o tira de si.» – Che Guevara

Há dias, a esperança foi enviada a Lviv, na Ucrânia, na figura de Nossa Senhora de Fátima, como mensageira da paz, em peregrinação. Muito haveria a dizer sobre o simbolismo  deste  ato, mas deixo-vos o assunto  para  pesquisar. Sabemos que dos bunkers surgiram milhares de pessoas para a verem. A fé é necessária, a fé é a esperança na liberdade, neste caso, a esperança de viver, de resistir, de ultrapassar o inferno dos homens que se abateu sobre os prados de milho dourado e os céus azuis. Hoje, Zelensky é considerado um herói do mundo  livre,  um mundo ameaçado por um opressor  medieval. Nem para as mulheres, nem para ninguém a liberdade, como a conhecemos, está firmada, mas a Ucrânia sabe: «(…) antes deles, dos invasores, já éramos livres.» Aqui, a liberdade vem pela dominação do medo. A Ucrânia já provou  ser livre.

«Prefiro os perigos da Liberdade ao sossego da servidão» – Thomas Jefferson

Em meados do Séc. XIX, os franceses também souberam conquistá-la. Eugéne Delacroix, em comemoração à Revolução de Julho de 1830, com a queda de Carlos X, pintou a liberdade guiando o povo, retratando-a como uma mulher semi desnuda como metáfora de emancipação e autonomia. Os ideais levantados por estes revolucionários, fundadores da nossa atualidade, estavam assentes no mesmo lema aplicado aqui: liberdade, igualdade e fraternidade. Em Nova Iorque, a estátua que segura a tocha na mão, projetada por Bartholdi e construída por Eiffel, a grandiosa Estátua da Liberdade, foi inspirada nesta pintura de Delacroix. Ao contrário da anterior, a figura feminina, a deusa romana Libertas, surge carregando a tabula ansata, num dos braços, e, no outro, bem erguido, o braço que leva a tocha. Nesta tabuleta que evoca uma lei, está inscrita a data da Declaração da Independência dos Estados Unidos, 4 de julho de 1776. Sabedoria, luz e firmeza caracterizam este edifício escultural que funcionou, como um farol e portal, de centenas de imigrantes esperançosos, em busca do mundo livre.

A maior estátua do mundo, a Estátua da Unidade, localiza-se na Índia e é dedicada ao líder do Movimento de Independência, Vallabhbhai Patel, o 1º Vice Primeiro Ministro deste país, o qual desempenhou um papel de liderança na luta do país pela independência do domínio da Autoridade  Imperial Britânica. Patel, orientou a integração da Índia numa nação unida, livre e independente, disso exemplo foi a petição Suraaj, assinada por cerca de 20 milhões de pessoas, considerada a maior petição do  mundo  assinada e consistiu no registo dos indianos sobre as suas ideias, para o bom governo.

Portugal tem muitas histórias de liberdade para contar. Já em Viriato, por volta de 148 a.c., chefe militar Lusitano, nascia a faísca desta «portugalidade». Um pastor que  travou  o domínio romano, na  Península  Ibérica. Habituado a combater, contagiou o seu povo e incentivou-o a lutar pelos seus direitos, não se sujeitando a acordos que Roma raramente cumpria e que deixavam os Lusitanos em desvantagem.

Afonso Henriques, mimado, louco ou visionário, não se sabe bem, farto das tributações espanholas, zangado com a sua mãe, resolve converter o Condado Portucalense a Portucale. Pai da nação, rei conquistador e independentista, dá o mote a tudo o que nos define. Alguns desejariam pertencer à sensual e arrebatadora Espanha, é certo, mas que seria de nós sem o nosso Fado e a nossa Poesia. Podemos amar o nosso país e podemos libertar-nos de comparações com a nossa vizinha pátria. Venha a Mariza, Carminho e o Camané e façamos a festa da liberdade num fadinho alegre, dançado ou chorado, sem esquecer o semblante carregado de drama, melancolia e sarcasmo. É tão bom termos a liberdade de chorar a cantar ou rir a chorar nas cantigas ao desafio.

Em Portugal, temos poetas revolucionários:

«Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!(…)»

Fernando Pessoa mostra um dos vários direitos que a liberdade proporciona, o direito a desejar, a procrastinar, a escolher, o direito a ser feliz — «Ai que prazer, não cumprir um dever». Nesta época de escrita, 1937, pessoas, ou melhor, antipessoas, como Hitler e  Mussolini  eram líderes do seu país e desejavam, tal como Putin, a expansão das suas ambições. A primeira  coisa que  estes  narciso-maníacos  faziam  e  fazem  é limitar a sabedoria do seu povo e, por isso, naquele momento, mandaram queimar livros ou, agora mesmo, manipulam os dados e as massas através de várias tecnologias. Na época, tal como agora figuras fascistas estavam a surgir em força, até mesmo no Brasil, antes o Estado Novo com Getúlio Vargas, hoje o «Estado Louco», com Bolsonaro.

Em Portugal, temos uma Avenida da Liberdade, em Lisboa, consagrada à liberdade do nosso país reconquistada ou restaurada a  Espanha,  em 1640. Bem no coração do Porto, na Avenida dos Aliados, temos a Praça da Liberdade, cuja designação foi adotada em 27 de  outubro de 1910. O nome é uma alusão à implantação do sistema republicano de governo.

No   Brasil,   é   célebre   o   Grito   do   Ipiranga, «independência ou morte», a famosa frase de D. Pedro, nas margens do rio Ipiranga,  onde  se situa, atualmente, a cidade de S. Paulo. O futuro imperador declara que o Brasil já não é uma colónia de Portugal. Sabemos que foi também rei de Portugal e que o seu coração foi deixado no Porto e o corpo enviado para S. Paulo. Lutou contra o absolutismo que era o seu irmão D. Miguel I e ganhou. Por tal feito, chamamos ao Brasil o nosso país irmão. Logo a seguir a este evento, os Açores também começam a  sua história pela liberdade. A luta pela autonomia democrática, a liberdade de fazer e ser de acordo com a específica e factual insularidade, tem sido histórica. Só, em 1822, vem a público, em Lisboa, a obra Corografia Açórica, com o objetivo de defender a unidade açoriana e a autonomia democrática, através da criação de órgãos de governo próprio. Esta primeira manifestação da açorianidade política — ou da liberdade política —, embora fosse uma obra coletiva, foi assinada por João Soares de Albergaria de Sousa, o que lhe custou o cativeiro sob o reinado de Miguel I de Portugal, entre 1828 e 34. Na verdade, a Praia da Vítoria, na ilha Terceira, é o mesmo que Praia da Liberdade, pois, no decorrer da Guerra Civil Portuguesa, aqui se travou a batalha da baía da Praia que frustrou a tentativa  de  desembarque de uma esquadra de tropas  miguelistas.  A derrota dos absolutistas neste recontro foi decisiva para a afirmação e posterior vitória das ideias liberais, em Portugal.

A liberdade é frágil, as pessoas  nem  se apercebem quando ela está a ser-lhes retirada.

É por isso que venho perguntar: Sabemos o que é a liberdade?

Parece-me importante refletir, lembrar ou equacionar de que modo a liberdade faz a diferença nas nossas vidas. Considero que a liberdade permite-nos ter imaginação, dela vêm as ideias que temos, que, então, constroem a sociedade. Partilhar os meus pensamentos é uma expressão da liberdade. Sou livre porque escrevo, porque imagino, porque desenho, porque posso colocar os meus planos em ação e mostrá-los, porque posso desejar ser e fazer e fazer o que desejo ser.

Estimo muito a liberdade. Na pirâmide das necessidades, coloco-a, muitas vezes,  em primeiro lugar, como um inicial mecanismo de filtragem. Se me tirarem a liberdade, como posso amar? Como posso dar? Como posso receber? Como posso ser feliz? Como posso aprender, desprovida de liberdade para errar? Sem este oxigénio, como posso cantar, desenhar, escrever?

Viver sem liberdade é, apenas, sobreviver e sobreviver não basta, num país livre, como o nosso. Em síntese, neste texto, escrevo, em simultâneo com Liberdade, as palavras: democracia, 25 de abril, Natália Correia, vulva, Fernando Pessoa, língua, Constituição, direitos, fraternidade, igualdade, razão, dignidade, responsabilidade, Cristo, Nossa Senhora de Fátima, Viriato, D. Afonso Henriques, independência, esperança, fé, povo, Fado, poesia, desejos, felicidade, autonomia,  oxigénio, Madonna, Miles Cyrus, Sinead O´Connor, Jim Morrison, Thomas Jefferson, Emma Goldman, Amália, Mariza, Carminho e Camané. Escrevi +/- 50 vezes a palavra liberdade, quase tantas vezes como os anos que temos, enquanto país democrático.

Enquanto escrevia este texto, procurei a opinião das pessoas à minha volta: continentais, açorianos, amigos, desconhecidos, crianças e adultos, artistas e pedagogos, entre outros. Nenhuma opinião foi igual. As opiniões eram as mesmas, subliminarmente, por meio de uma mesma emoção. Não as transcrevo aqui, pois assiste-lhes a liberdade de não concordarem comigo e com este texto, mas guardei-as e partilhei-as, no meu Instagram. Passem por lá e deixem, também, a vossa opinião, sobre a liberdade. Estou em: @lidiamenesesdesign

Ilustração e texto por Lidia Meneses

Categorias: Opinião

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