“A insularidade não impediu que estivesse presente num órgão de uma federação nacional”

José Raimundo é o novo vice-presidente da Patinagem Artística da Federação de Patinagem de Portugal. O santacruzense fala do passado mas também do futuro e do desafio que abraça nos próximos quatro anos

José Raimundo aprendeu a patinar há 26 anos no campo de jogos de Santa Cruz FOTO DL

É o elemento mais novo dos novos órgãos sociais da Federação de Patinagem de Portugal (FPP). É o único organismo no país que regulamenta as competições de hóquei, patinagem artística e patinagem de velocidade que envolve 20 atletas do continente e ilhas. Aos 40 anos, José Raimundo, consultor de serviços na área automóvel, deixa a Associação de Patinagem de São Miguel (APSM) onde esteve 15 anos, para assumir mais responsabilidades e mais poder de decisão dentro da modalidade. O santacruzense é o vice-presidente da patinagem Artística da FPP. Tudo começou no campo de Santa Cruz, na Lagoa, onde tirámos a fotografia para esta entrevista. Foi no cimento que calçou os patins e começou a dar os primeiros passos na patinagem. De Santa Cruz até Lisboa passaram-se mais de duas décadas

DL: Como é que chegou à patinagem?
O gosto pela patinagem apareceu há 26 anos quando o padre José Francisco Pires anunciou, na igreja, que iam começar a dar aulas de patinagem aqui em Santa Cruz através do Clube de Patinagem de Santa Cruz. Fomos dos primeiros atletas, quer eu quer os meus irmãos. Começámos como atletas e ao fim de algum tempo fui-me instruindo na patinagem, comecei a tirar alguns cursos de patinagem artística e de treinador de patinagem artística, também de hóquei em patins, patinagem de velocidade, fiz formação ao nível da arbitragem. Depois integrei na Associação de Patinagem de São Miguel – antiga Associação de Patinagem de Ponta Delgada – , comecei como secretário, passei para vice-presidente e há cerca de oito anos assumi a presidência da Associação de Patinagem de São Miguel. Agora surgiu este convite para ingressar nos quadros da federação.

DL: A patinagem cresceu muito nos últimos anos nos Açores, sobretudo em São Miguel. Considera que esse crescimento se deve a quê?
Deve-se a um trabalho que foi feito de raiz, primeiramente foi uma aposta forte da APSM a nível de apoios aos clubes, nós assumíamos 50% das inscrições dos atletas, tínhamos uma gabinete médico, isentamos os clubes em algumas provas e isto fez com que aos clubes tivessem melhores condições para evoluir. Posteriormente fizemos apostas fortes nas várias modalidades de forma a realizar cursos de treinador, formar as pessoas, habilitar as pessoas para que tenhamos o maior número de pessoas credenciadas e que pudessem geograficamente expandir a patinagem em São Miguel. Quando entrei tínhamos cerca de quatro a cinco clubes, hoje são 12 clubes e aí está a prova de que a aposta na formação de treinadores e de juízes foi importante para o grande crescimento da modalidade. Tínhamos 200 e atualmente temos mais de 620 atletas em duas modalidades. A APSM está em quatro concelhos: Lagoa, Ponta Delgada, Vila Franca e Ribeira Grande.

DL: Estamos a falar de uma aposta para que a modalidade se tornasse autónoma aqui na região?
Sim, foi justamente nesse sentido que quando abraçamos o projeto. As associações servem para isso, não existem associações sem clubes e os clubes não existem sem os seus atletas.
A patinagem é uma referência nos Açores, tem excelentes resultados a nível nacional, com pessoas que trabalham com paixão e que se dedicam a cem por cento a esta modalidade com o objetivo de cada vez ter mais e melhores resultados, não só a nível local e nacional como até mesmo internacional.

DL: Quem se dedica ao associativismo como o fez durante vários anos, tem de trabalhar muito fora de horas?
Sim, isto é uma paixão, não ganhamos nada com isso, simplesmente o prazer de concluir objetivos, ambições, sonhos. Não pode ser doutra forma, mas fazemos como se fossemos profissionais. É um pouco por aí, os clubes que representam a patinagem nas diversas disciplinas fazem-no por gosto, por amor à modalidade, por paixão e o querer sempre mais e melhor para a modalidade.

DL: Como é que surgiu o convite para a vice-presidência da FPP?
O convite foi-me feito a meio deste ano pelo atual presidente da federação, o professor Luís Sénica, que me apresentou um projeto de excelência, com rigor, transparência. Posteriormente tentei arranjar as melhores soluções para que a modalidade também na região não ficasse ao “abandono”. É sem dúvida um orgulho não só para mim como para a modalidade e para a região ter um dirigente desportivo nos altos quadros nacionais de uma federação.

DL: Acha que o facto de ter essa posição, poderá ser benéfico para a modalidade na região?
É sempre bom porque reforça a ideia de que temos gente capaz de estar ao mais alto nível. Isto demonstra também que a insularidade não impediu que estivesse presente um órgão de uma federação nacional. Acho que a esse nível vai reforçar, vai solidificar e vai valorizar mais a modalidade, sem dúvida.

DL: Em termos práticos, como é que se vai processar o seu trabalho?
De 15 em 15 dias temos reuniões de federação, vou fazer algumas delas por videoconferência, no entanto nas provas nacionais que estão sob a nossa organização e da do comité que trabalha comigo, estarei presente nessas provas todas. Também vou estar presente com o comité nas participações das seleções nos campeonatos da Europa, taça da Europa e campeonato do mundo.

DL: Quantas pessoas é que vão estar a trabalhar diretamente consigo?
São cinco elementos no comité que trabalham diretamente com o vice-presidente da Federação de Patinagem. Eles fazem a operação de toda a atividade juntamente comigo de forma a implementar a questão das provas, das seleções e toda uma série de situações que fazem parte da regulamentação em vigor, só na patinagem estamos a falar de cerca de 8 mil atletas.

DL: Em termos profissionais, pensa um dia dedicar-se só à modalidade?
Infelizmente é difícil, só o futebol, primeira e segunda liga, têm essa capacidade e pouco mais no país. Se um dia isso fosse possível teríamos outra disponibilidade que permitia também abraçar outro tipo de projetos e desenvolvimento dentro das próprias modalidades.  Se acontecesse era um bom sinal.

Sara Sousa Oliveira

(Entrevista publicada na edição impressa de outubro de 2020)

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