“A gente não quer viver disto, queremos sim viver isto”

Dois jovens da Lagoa e um da Ribeira Grande alimentam a produtora Fusion. Os três escrevem e produzem hip-hop a partir de um antigo estúdio de rádio 

Guilherme Pacheco e Rúben Almeida são naturais da Lagoa e André Saudade da Ribeira Grande © CORTESIA FUSION

É noite de quarta-feira e partimos da cidade da Lagoa rumo à freguesia da Conceição, na Ribeira Grande. A paragem? Antigo estúdio da rádio Nova Cidade. O estúdio que foi outrora a sede da rádio ribeiragrandense pertence à família de um dos entrevistados desta reportagem. O avô de André Saudade fundou a rádio da cidade da costa norte e a família ficou com o edifício apesar de já não ser proprietária da rádio. No mesmo espaço agora reúnem-se artistas que prometem revolucionar a cena do hip-hop açoriano com talentos da Lagoa e da Ribeira Grande. Os artistas dos dois concelhos vizinhos uniram esforços e conseguiram alcançar milhares de visitas nas suas músicas nas redes sociais, em especial no YouTube e no Spotify.

Guilherme Pacheco, 26 anos, é natural do Cabouco, Lagoa. É vigilante da Natureza e no mundo do hip-hop é conhecido pelo que diz ser o seu alter ego, “GUII”. Ao Diário da Lagoa (DL) conta: “sempre curti música e o hip-hop”. GUII começa por fazer interpretações de outros artistas ao publicar nas redes sociais de forma “desenfreada”, em 2018. Foi assim que tudo começou, quando alguns amigos começaram a perguntar se “era a sério” e desafiaram Guilherme a continuar.

André Saudade é o elemento mais novo. Tem 25 anos e é natural da Ribeira Grande. É designer gráfico e é ele que disponibiliza o estúdio da antiga rádio. Trata da produção audiovisual através da produtora Fusion Productions, enquanto também colabora em algumas músicas, sempre que se sente inspirado. Ao DL relata que “a introdução na música começa há muitos anos, quando tocava guitarra” com o seu professor “Luís Bettencourt, o de São Miguel, músico da banda Morbid Death” no início da adolescência.

E prossegue: “sempre tive uma grande paixão pela música, sempre quis estar relacionado com a música. Sinto-me feliz por estar a fazer parte deste projeto”.

No final de 2018, antes do Natal, começaram as primeiras gravações. Guilherme, entretanto, já preparava a solo o tema «Ardósia» que viria a disponibilizar no ano seguinte, em maio de 2019. Foi a estreia na internet até que em outubro lançaram o tema «Metamorfose». Pelo meio estiveram sempre em estúdio e André conta que sem qualquer pressa, porque “há uma coisa que o GUII me ensinou e que levo para a vida que é dar prioridade sempre à qualidade. O nosso lema é a qualidade, antes de pôr qualquer coisa cá fora.”

Ruben Almeida, 27 anos, é também lagoense, natural da vila de Água de Pau, é vendedor de eletrodomésticos e nos seus tempos livres é um dos elementos presentes no estúdio. Cresceu em Southampton, nas Bermudas, de regresso à vila pauense, ao iniciar-se na música escolheu o alter ego “Outsidah”.

Ruben diz que é “ forasteiro”. Nasceu em São Miguel mas com um ano e pouco foi para as Bermudas com os pais, até regressar com 11 anos. “Sofri bullying, refugiei-me na música até agora”, desabafa acerca do seu regresso aos Açores, enquanto confessa que o hip-hop apareceu na sua vida ao descobrir o rapper americano Eminem. Então, a partir daí começou a escrever as suas “primeiras letras”, enquanto Guilherme esclarece que Rúben juntou-se a Guilherme e André em 2020, sendo que são amigos “desde os tempos de escola”.

Outsidah escreve as letras e canta em inglês. Guilherme destaca que “pensar no conceito da mistura entre português e inglês requer algum tempo e ousadia, sair um bocado da caixa”. Já André Saudade reforça: “eu e o GUII temos experiência de escrita recente, aparece o Ruben que já tem 15 anos de caneta e escreve uma cena no momento, o pessoal passou-se. Ainda por cima tem uma dicção genuína”.

Outsidah revela que já lançou quatro temas e que está a elaborar o seu primeiro álbum que gostava de ver lançado no final deste ano ou início do próximo. Este será o segundo álbum produzido pela Fusion, depois do álbum «Corpo & Alma», o primeiro de GUII, que conta com 10 temas e com a colaboração de Outsidah e Saudade “a limar arestas”. Guilherme revela que o trabalho base foi seu, mas “todo o trabalho que ninguém vê, que é o trabalho de esculpir o material, eles estiveram aqui e são sem dúvida elos fundamentais”.

Produtora Fusion lançou artistas açorianos gratuitamente

Outro projeto já lançado e produzido gratuitamente durante a pandemia em estúdio foi o «Lights, Fusion, Action». São 13 vídeos com 13 intérpretes açorianos diferentes, um trabalho que consideram ser “em prol da dinamização da música nos Açores” e que teve o intuito também de dar a conhecer o trabalho que são capazes de produzir em estúdio. As interpretações foram publicadas no Instagram e no Spotify e cedidas de “boa vontade”, conta Saudade. Em três meses conseguiram alcançar 40 mil pessoas.

Questionados sobre a produtora que criaram, esclarecem que esta nasce por iniciativa de Guilherme e André com o apoio criativo de alguns amigos, nomeadamente Filipe Paiva, Rafael Tavares e Isaac Correia, em 2018.

GUII, Outsidah e Saudade têm cada um a sua própria conta no YouTube e uma “playlist” no Spotify através da Fusion Productions.

Destacam os temas «Nem sei», com 60 mil visualizações, «Metamorfose» com 48 mil e «Ardósia» com 40 mil, “NocNoc” com 22 mil, “Tudo nosso” com 21 mil, entre outros. No total dizem ter alcançado “cerca de 250 mil visualizações” só no canal do GUII. Com o lançamento do álbum «Corpo & Alma» são mais 52 mil, perfazendo milhares de visualizações.

Quanto ao futuro, Guilherme diz que “do ponto de vista pessoal espero dar continuidade a uma evolução constante. Não me quero cingir apenas ao rap, nem impor limites à minha arte. Quero explorar outras vertentes sonoras.”

Saudade diz que “tem objetivos a longo prazo, em relação à Fusion é um dia de cada vez”, enquanto Ruben mostra subscrever o que ambos afirmam.

Em relação a concertos, Guilherme desabafa que não lhes é dada a oportunidade de subir ao palco e que: “a nossa meta é chegar ao maior número de pessoas. Quando depositamos muitas expetativas no nosso futuro, a probabilidade de sermos defraudados e ficarmos um bocado desiludidos com o resultado é muito maior. O objetivo passa por não ter muitas expetativas, apreciar a espontaneidade que a vida te dá. Quero fazer isso até sentir que o deva fazer, é isso”. “A gente não quer viver disto, queremos sim viver isto”, atira e conclui Saudade. 

Clife Botelho

Reportagem publicada na edição impressa de novembro de 2022

Videoclipe «Fusion» com GUII, Saudade e Outsidah

Categorias: Reportagem

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