“A diáspora portuguesa é como um fruto de uma árvore transplantada”

Os relatos dos avós eram “de tempos duros, de tentar ganhar a vida, e todas as razões que os levaram a emigrar”, uma história comum a tantos lusodescendentes

Escritora Milicent Borges Accardi, com raízes na Terceira, lançou livro inspirado em poesia portuguesa © CORTESIA MILLICENT B. ACCARDI

Na vida de Millicent, como na de tantos emigrantes, a narrativa do passado contrasta com a do presente: “Tudo o que ouço é sobre a exuberância dos Açores, quão lento é o ritmo e que é como viver num paraíso”.

“Os netos e os bisnetos dos emigrantes lusos, tudo o que queremos é voltar”, conta ao DL Millicent Borges Accardi.
A poeta lançou em outubro “Through a Grainy Landscape”, pela New Meridian Press.

Muitos dos poemas são inspirados em versos de poesia portuguesa ou luso-americana.

“A inspiração, para mim, foi a escrita como um ponto de entrada para perceber a cultura que eu ansiava conhecer melhor. Parece que, independentemente da geração, os portugueses sentem perpetuamente falta de casa e que têm uma ânsia pelo que está ausente, é essa a natureza da saudade de que se ouve falar”.

Foi a partir dessa ideia, mas também na tentativa de responder a “como é que alguém pode ser ‘eu’ e ‘outro’ ao mesmo tempo?” que nasceram os poemas de “Through a Grainy Landscape”.

Essa é uma questão que a própria coloca, mas que “todos procuramos”, considera a escritora.

Para além disso, “nos versos da poesia de autores portugueses”, foi “também inspirada pelas imagens de isolamento e tristeza, mas também de um sentido de humor subjacente, do que não pode ser. Talvez um vazio de que estamos todos à espera e a tentar encontrar”.

O escritor Frank X. Gaspar considera que “este é um livro vital para quem tem uma herança cultural portuguesa, mas é também um livro importante para leitores americanos de qualquer contexto ou tradição. Traça uma ponte estética entre culturas”.

O livro é dedicado a George Monteiro e Christopher Larkosh, que Millicent descreve como dois dos seus “heróis literários”.

Ao Diário da Lagoa, explicou que o são “não tanto pelo seu trabalho no mundo luso, que é brilhante, mas pelo desejo por uma vida académica e criativa” que os escolheu como “mentores”.

George Monteiro foi professor da Universidade de Brown, onde impulsionou os Estudos Portugueses, e foi um dos seus primeiros “amigos literários”, conta.

Christopher Larkosh também ensinou Estudos Portugueses, mas na Universidade de Massachussetts, e era um “grande fã do que estava a ser escrito atualmente por escritores luso-americanos no século XXI”.

O interesse pela literatura portuguesa começou numa viagem a Lisboa em que diz ter-se apaixonado pela poesia de Nuno Júdice, depois de ter ouvido uma das suas leituras.

“Pouco depois, descobri um ‘site’ incrível, chamado Poems from the Portuguese, com poesia de autores portugueses traduzida. O ‘site’ foi fundado a partir de uma ideia do Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura, e é gerido pela Ana Hudson, com o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian”.

Foi também através da literatura portuguesa que foi aprendendo sobre a sua herança cultural.

Para esse percurso, foram importantes autores como Rosa Alice Branca, Jacinto Lucas Pires e José Luís Peixoto, tendo entrevistado os últimos dois, ou o “revolucionário” livro de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, “Novas Cartas Portuguesas”.

Millicent é também uma das fundadoras da cooperativa Kale Soup for the Soul, um instituto fundado em 2011, que promove arte portuguesa e que já mostrou mais de 30 escritores portugueses ou lusodescendentes em cidades como Boston, Seattle, Providence, New Bedford, Albuquerque, Iowa City, Newark, São Francisco, ou São José.

“Eu sempre fui curiosa
sobre de onde tinha vindo.
O que eu sabia era que o meu pai
tinha sido adotado (…)
quando era pequeno.”


Considera que “a diáspora portuguesa é como um fruto de uma árvore transplantada, embora os ramos sejam diferentes, eles continuam a ser alimentados pela mesma raiz”.

Muita dessa diáspora, nos Estados Unidos, é originária dos Açores, como a família da escritora, que vem da ilha Terceira.

O arquipélago faz parte do imaginário de muitos dos escritores que promove, mesmo aqueles que nunca o visitaram, como Millicent, que apesar de já ter estado várias vezes em Portugal, o estado de saúde do marido, que espera um transplante de coração desde pouco antes da pandemia de covid-19 ter aparecido, tem adiado a viagem aos Açores.
“A terra fértil e a natureza caprichosa dos vulcões, a indústria da pesca, as vidas vividas rodeadas de água, a natureza sazonal da vida na ilha”, fascinam os autores que conhecem ou imaginam as ilhas que lhes foram contadas.

Esse caminho imaginário e a redescoberta das raízes nem sempre vem de onde se espera.

“Talvez uma das razões seja a tecnologia, que nos abriu uma avenida ou uma ponte para uma história de que não tinham noção anteriormente. Quem está na América e faz um teste de ADN, pode apontar a origem em muitas direções e criar uma nova curiosidade para explorar a identidade e a história familiar, o que é incrível”.

Antes disso, procurar “identidade e história familiar era sentar com um familiar, olhar para uma fotografia antiga, colocar questões, contudo, tanto ficou perdido na Ellis Island. Nomes mudados, famílias separadas pelo tempo, pela geografia ou razões financeiras”.

“Tantos imigrantes portugueses na Califórnia e na costa leste eram originalmente dos Açores, não do continente português, e pode ser complicado tentar localizar papéis antigos de paróquias pequenas, como registos de batismo ou até papéis de adoção.”

Para Millicent, a literatura preencheu uma lacuna que a família deixou.

“Eu sempre fui curiosa sobre de onde tinha vindo. O que eu sabia era que o meu pai tinha sido adotado pela avó materna e uma tia-avó quando era pequeno. Sabia que o nome dele tinha sido mudado de Baptista para Borges e que a família era da Terceira. Para além disso, as memórias eram confusas. O meu pai era um acólito em New Bedford e que tinha um tio Manny que trabalhava na construção civil”.

“A primeira língua do meu pai era o português, um dialeto açoriano, e ele sempre achou que tinha sido adotado para ser o guia turístico da avó, sempre que ela e a sua irmã nunca falavam inglês, por isso mandavam o meu pai à loja e levantar receitas na farmácia. Ele dizia que lia o jornal em voz alta para elas, depois de ter aprendido inglês na escola primária”.

Millicent Borges Accardi vive na Califórnia. Tem editados os livros “Only More So”, “Injuring Eternity” e “Woman on a Shaky Bridge”.

Recebeu várias bolsas de criação e investigação e colaboradora com edições como The Writers Chronicle, Association of Writers & Writing Programs, The Portuguese American Journal ou Portuguese-American Review.

Inês Linhares Dias

Reportagem publicada na edição impressa de janeiro de 2022

Categorias: Reportagem

Comentários

  1. Millicent Borges Accardi 23 Janeiro, 2022, 17:15

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