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A costa da Lagoa

Início de uma fajã lávica em 2022, na ilha de La Palma. O vulcão de Cumbre Viejo retoma atividade, produz lava fluida que desce em direção ao mar, galga a falésia costeira e espraia-se no oceano, constituindo uma plataforma rochosa: a fajã. © PROTEÇÃO CIVIL CANÁRIAS

1 – Tenho vindo a escrever sobre algumas particularidades naturais do concelho da Lagoa. Num artigo opinei que a Lagoa era um área com um historial sísmico razoavelmente seguro, desde que se construísse bem e em local adequado. Num segundo artigo, escrevi sobre a formosa laguna que existiu na baía de Santa Cruz e que desapareceu devido à exploração incontrolada de areias. E citei que a zona da Lagoa era o extremo poente da primeira ilha de São Miguel, situando-se ao fundo, lá ao longe, a ilha das Sete Cidades.

2 – Hoje versamos sobre a formosa costa do concelho da Lagoa, pouco visionada pelas embarcações turísticas que navegam apressadamente para as praias de Água d’ Alto ou de Vila Franca do Campo. E, partindo das praias do Pópulo para nascente, a costa é basáltica, lávica e rochosa. As partes mais altas são as de cerca de dez mil anos de idade, mas algumas foram sobrepostas por rios de lava, agora consolidada, bem mais recentes, com cerca de dois mil anos. As idades foram determinadas num laboratório de Lisboa que então executava análises de carvões de florestas envolvidas pelos rios de lava (rádio carbono 14).

3 – A costa rochosa apresenta-se, ora em grandes blocos (“block lava”), ora em lajidos e formas de cordões (lava encordoada ou “pahoehoe”), ora em lavas de superfícies aceradas, cortantes (lava em biscoito ou “lava aa “,  este também termo hawaiano). A costa rochosa, desde o Pópulo até Santa Cruz da Lagoa, é muito rendilhada, isto é, com reentrâncias e pontas de lava, mar adentro. As reentrâncias estreitas denominam-se caneiros. As mais largas chamam-se calhetas. As muito abertas tem o nome de angras. Ao longo dessa paisagem existem relevos abaulados, como inchaços, em direção ao mar; são os “tumuli ” (no singular, “tumulus”). Os caneiros e os “tumuli”  são muito importantes para a desova e sobrevivência de seres marinhos. As piscinas naturais ou poças, também fazem parte deste desconhecido rendilhado natural. Nas pontas, pesca-se ao corrico (bicudas, anchovas, cavalas). Nas reentrâncias crescem — ou cresciam — as cracas, as lapas, a lapa-burra e os cavacos…

4 – No extremo das rochas da baía de Santa Cruz, olha-se para Norte, onde se situa o belo palacete camarário e é fácil observar que os terrenos não são de lava cinzenta escura — são de tons amarelados frequentemente distinguindo-se a pedra-pomes esbranquiçada e deslizamentos de terras. Algum casario da freguesia localiza-se à beira duma falésia que se prolonga para nascente — é o extremo da primeira ilha de São Miguel, é o denominado Complexo Vulcânico do Fogo ou, simplesmente, o Vulcão do Fogo ou Serra de Água de Pau, surgido há cerca de 500 mil anos.

A falésia prossegue até à linda fajã lávica da Caloura, de idade desconhecida mas decerto e apenas de pouquíssimos milhares de anos. É um dos tesouros naturais da ilha de São Miguel, já devastado por edifícios desenquadrados e por uma taxa de ocupação inadequada, naturalmente perigosa e nefasta.

O moderno turismo açoriano enriquece uns, escraviza outros e vai matar, rapidamente, muitos mais.

Já a nossa viagem geoturística, prosseguirá, noutra edição, para as bandas da Caloura, sempre com curtas descrições.