A Casa de Acolhimento que transformou a pandemia num mal que veio por bem

A pandemia afetou o dia a dia das instituições e a Casa de Acolhimento da Santa Casa da Misericórdia de Santo António não foi exceção. Mas depois das adversidades nasceram coisas boas

Instalações no Rosário acolhem cinco rapazes e uma rapariga Foto Rui Pedro Paiva

Aquando dos meses críticos da pandemia da covid-19, houve uma tarja, erguida numa varanda de um edifício da avenida infante Dom Henrique, na Lagoa, que se tornou popular. De repente, quer a reboque da comunicação social, quer graças às inúmeras publicações nas redes sociais, todos partilhavam a mensagem de esperança da Casa de Acolhimento Residencial da Santa Casa da Misericórdia de Santo António da Lagoa.

Aquela tarja, onde um arco-íris acolhia a mensagem “Vamos Ficar Todos Bem”, nasceu de uma das atividades feitas durante o confinamento. “Tivemos de ocupar os tempos livres deles com atividades diferentes daquelas que eles estavam habituados”, explica ao Diário da Lagoa a diretora técnica do Lar Sofia Rodrigues. Entre essas atividades estavam “jogos de tabuleiro”, “pinturas”, “trabalhos manuais”, “jogos tradicionais” e “desenhos”. “Teve de haver bastante criatividade”, diz a diretora.

A necessidade de ocupar o tempo dos seis jovens que acolhem – cinco rapazes, uma rapariga – deveu-se ao “primeiro impacto” da pandemia na vida do lar, relacionada com as obrigatórias mudanças nas “rotinas dos jovens”. Rotinas que, antes da covid-19, incluíam a ida à escola, o envolvimento em atividades como o futebol, o futsal, o kickboxing e catequese, e algumas saídas autorizadas. Depois do novo coronavírus, as rotinas passaram a ser “24 horas sob 24 horas” dentro das mesmas paredes, até porque as visitas e as saídas passaram a ser proibidas.

O fecho das escolas não impediu apenas o convívio daqueles jovens com os amigos. O ensino à distância obrigou a “grandes mudanças” no lar, que não tinha meios para acudir às aulas virtuais. “Não tínhamos materiais, foi um bocadinho complicado. Tínhamos um tablet e um computador fixo”, destaca a diretora, salientando que, felizmente, “alguns jovens tinham telemóvel com capacidade para instalar as plataformas” necessárias. Além disso, a outrora sala de estudos, teve de ser transformada em quarto de isolamento e os jovens tiveram de passar a ter aulas noutros sítios do Lar, inclusive no gabinete da própria diretora.

Daniel Rego, 19 anos, é um desses jovens. Esteve vários meses longe da namorada e sem treinar no clube de futsal da Atalhada. “No início não foi fácil, uma pessoa nunca pensou viver um momento desses”. Mas diz que sempre teve a noção do perigo: “estamos habituados a sair, mas fomo-nos mentalizando que ficávamos mais seguros em casa”.

Também Leandro Mancebo, de 13 anos, diz ter compreendido a necessidade de ficar em casa, apesar de considerar uma “grande seca” estar “pouco a pouco” a lavar as mãos. “É chato, mas temos mesmo de ficar em casa. Se eu apanho, eu pego a todos aqui dentro. Toda a gente apanha por causa de mim”. Por isso, fez o esforço, o que implicou que tivesse estado longe do irmão – para ele foi o pior do confinamento. “Senti falta do meu irmão. Aquilo é a minha vida” diz, referindo, que já mataram saudades depois de cinco meses sem se ver.

A diretora do Lar destaca que o conhecimento da situação crítica acerca daquilo que se passava em Itália ou Espanha, fez com que os jovens “também ficassem apreensivos”. À exceção de um caso: um jovem, a meados de março, desvalorizou a situação e continuou a sair mesmo não tendo a autorização. “Aí tivemos intervenção da Polícia de Segurança Pública da Lagoa. Vieram cá falar com ele e explicar que a atitude podia ter implicações de desobediência”, assinala, referindo que, desde aí, o rapaz tornou-se um “sucesso” no cumprimento de todas as normas de segurança.

Passados aqueles meses, a diretora acaba por fazer um balanço positivo. Mas não esconde as dificuldades: “foi tudo repentino, não houve preparação prévia”, diz, dando o exemplo da dificuldade que é trabalhar estando sempre a ser “bombardeada” com “circulares” das entidades de saúde. Além disso, a “exigência ideal” de trabalhar em turnos rotativos não é possível quando o staff é composto por 11 pessoas, sendo sete da equipa educativa. “Não temos recursos humanos para isso”.

Diretora do lar, Leandro Mancebo e Daniel Rego Foto Rui Pedro Paiva

“Há mal que vem por bem”
O jovem Leandro estava há três anos no quinto ano. Com as aulas virtuais, passou finalmente para o sexto. “Em casa tenho mais tempo para estudar, é melhor ter aulas em casa”, diz, referindo que tinha sete fichas com exercícios para fazer semanalmente. De manhã, via a aula. Depois almoçava, “conversava um bocadinho” e de tarde “fazia então as fichas”. A receita deu sucesso.

Também Daniel melhorou as notas, sobretudo a matemática, disciplina onde tinha “muitas dificuldades”. Diz que conseguiu ser “melhor aluno” porque tinha mais tempo. Em resumo, “sentiu falta dos amigos”, mas as aulas virtuais acabaram por “ajudar bastante”.

As melhorias não se fizeram apenas sentir ao nível escolar. Com todos em casa, a união do grupo acabou por aumentar. Isto porque antes “uns estavam numa escola outros noutras”, cada qual “tinha as suas atividades”, explica Daniel. Devido às consequências da pandemia acabaram por ficar “mais unidos” e passaram a “conversar mais uns com os outros”. É mais um incentivo para Daniel, que está prestes a fazer 19 anos, mas que não pensa em sair do lar, ao contrário do que acontece com a “maior parte das pessoas” naquele centro quando se tornam maiores de idade: “eu vou aproveitar as oportunidades que o lar me dá. Sinto-me bem aqui e tenho condições que em casa não tinha”.

Também para a diretora a união do grupo acabou por ser uma das notas mais positivas da pandemia. Aumentou o “companheirismo”, a “união” e a “própria dinâmica” das relações da casa. Até porque o confinamento afastou alguns jovens das “más influências”, assinala a diretora, explicando que muitos miúdos acabam por “cair na tentação do consumo de estupefacientes”.

Talvez por isso haja um desenho na porta de entrada do lar, feito por um dos jovens, que defende que “há mal que vem por bem”. Um desenho que, segundo a diretora, revela que “são eles próprios a assumir que houve efeitos positivos” da pandemia covid-19.

O desafio para o futuro é, nesse caso, tornar a exceção na regra. Também para o futuro, a pandemia já não os vai apanhar desprevenidos. “Se houver segunda vaga, estamos mais preparados. Oxalá que não, mas vamos ver como corre”.

Rui Pedro Paiva

(Reportagem publicada na edição impressa de agosto de 2020)

Categorias: Reportagem

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