A 28 de Julho a Vila de Água de Pau celebrou o seu 505º aniversário

Por RoberTo MedeirOs

Panorâmica da Vila de Água de Pau de 2003 anterior à Via Rápida
Foto John Robson de New Bedford, EUA

Por alvará passado pelo rei de Portugal, D. Manuel I, foi a Freguesia de Água de Pau elevada a Vila e sede de concelho. As razões pelo qual mereceu este estatuto devem-se ao facto desta terra ter sido coroada de terras muito férteis e de recursos hídricos de boa e em grande quantidade. Daí o nome de Água de Pau. Encontraram os primeiros que aqui chegaram tanta água e uma serra recheada de tanto arvoredo onde pau para toda a obra não faltava. Estabeleceu-se nesta localidade gente cortejada pelo reino e de influência, que alguns dos «principais» pauenses armando-se cavaleiros, com seus homens foram defender o reino e nossas praças conquistadas no norte de África. De regresso a Água de Pau o Brazão de mérito que lhes fora atribuído concederam-no à sua Igreja da Senhora dos Anjos, que ainda hoje está patente no cimo do altar da mesma.

Ainda sobre a criação do concelho de Água de Pau, Carreiro da Costa diz que «A proximidade de Água de Pau em relação a Vila Franca do Campo – ao tempo da capital da ilha – o prestígio e a atividade das pessoas mais importantes da terra e, por consequência, o progresso social e económico operado localmente, terão contribuído para que a mesma Água de Pau ganhasse a corrida no sentido de se constituir vila e sede de concelho. Assim, a 28 de julho de 1515 – cerca de sete anos antes da Lagoa – era Água de Pau elevada a vila e tida como cabeça de um concelho com meia légua de raio. Era a quinta vila que se criava em S. Miguel, pois que a primeira havia sido Vila Franca do Campo, em data que não se pode precisar; a segunda, Ponta Delgada, em 1499; a terceira, Ribeira Grande, em 1507; a quarta, Nordeste em 1514 e a sexta, Lagoa, em 1522.[Cf. Carreiro da Costa, Memorial da vila da Lagoa e do seu concelho, P. Delgada, 1974, p. 13]

Da história desta vila, recorro ao túnel que me leva ao passado e entro na caravela que saiu de Portugal na segunda metade do século XV e percorre a costa sul da ilha de S. Miguel, com escarpas e falésias de lava. Aqui e ali vêm-se grutas e cavernas. Além parece-me ver a ponta de um penedo parecendo a quilha de uma «Galera» com uma reentrância a seguir de rochas em «Cerco». Além, a falésia torna-se altaneira com carrancas desenhadas na lava rochosa e aproximamo-nos de uma baía constituída por duas praias. Uma pequena enseada com uma gruta e a maré cheia, do momento, permite-lhes confirmar que uma pequena embarcação consiga nela entrar. Aproximamo-nos da outra praia, numa baía que a protege. No meio da praia projeta-se da rocha uma grossa cascata de água, provocando uma calheta chã que rompe a areia, deixando visível um corredor de água doce que se entranha no mar.

Na caravela, vinham alguns abastados morgados, como Manuel Afonso Pavão e João Jorge, alguns Oliveiras, Araújos e Sousas que procuravam um lugar que lhes permitisse construir uma vila. Para isso teria de ter terrenos férteis e bons recursos hídricos.

Aportam finalmente, desembarcam, reconhecem a terra, de que tomam solenemente posse, no meio do cenário grandioso da natureza. Esforçados nos perigos, eram fervorosos na sua gratidão e reconhecimento à proteção divina.

Sobem uma íngreme rebentação, abrindo vereda os da frente, até chegar à chã. Dali olhando para trás, vislumbram toda a baía e a praia com a calheta, onde apartara a caravela.

Um sacerdote celebra o incruento sacrifício da missa ali mesmo no descampado. Não havia ainda altar nem templo, mas que importava?
Qualquer lasca de pedra virgem serve de ara, tendo por cúpula a abóboda do firmamento, donde pende a grande lâmpada do sol. As rochas, eretas, assemelham-se a colunas com cortinados de cantaria. A relva cobria o chão como um tapete aveludado.

Nas mãos do sacerdote elevou-se a Hóstia consagrada a alvorecer o espaço. Os portugueses povoadores estão de joelhos, reverentemente inclinados. Com esta missa, com a alma temperada em tão solene batismo de fé, surgiu, em bela e prometedora manhã de história, daquele povo para viver nas terras ricas de pão e boníssimas águas, desde a ponta da Galera até à Serra, denominada depois e para sempre, por Serra de Água de Pau.

Manuel Afonso Pavão ali perto se fixou com sua família, conforme carta abonatória que trazia do reino que lhe permitia ocupar porção de terra onde assim desejasse. A este lugar seria dado depois o nome de “Jubileu” talvez por ter passado meio século de paz e segurança que a rocha altaneira proporcionara ao povoado, dos ataques dos piratas e ao porto com o seu nome e que hoje, 505 anos depois, dá pelo nome de Baixa da Areia.

Água de Pau atraía novos colonos vindos de Portugal. Nas caravelas que iam aportando à ilha de S. Miguel, na ânsia de povoar as ilhas por vezes vinha mão de obra mourisca escrava para ajudar a desbravar a terra e noutras vezes no reino, despejavam os calabouços e enviavam gente de má índole também.

Por isso, Manuel Afonso Pavão mandou construir no cume da rocha mais altaneira ao porto, uma armação onde se visse bem um laço e uma “Forca”, para que os que chegassem com ímpetos de má-fé ficassem logo a saber que naquela terra, havia lei! Ainda hoje este lugar dá pelo nome de “terra-da-forca”!

O povo cresceu e o povoado também. Os que iam chegando foram abrindo primeiro, atalhos, veredas e até ruas. Seguiram-se as determinações do reino e com os primeiros colonos vieram um padre e alguém que riscaria ou distribuiria as ruas para que se fosse erguendo os casebres, da futura vila.

Passado o Jubileu subiram a encosta, abrindo caminho paralelo a uns «barrancos» onde passava uma ribeira de forte caudal, fixaram-se uns «ferreiros».

Subiram e num largo que viria a ser a Praça, o padre e o representante do reino seguiram a margem direita da ribeira e num plano mais elevado decidiram construir a indispensável igreja consagrada ao culto de Nª Sª dos Anjos.

Dali do plano alto da igreja, o povo iria ouvir o seu sino e ver sempre a sua igreja de onde estivesse localizado. A rua que ia da igreja à Praça viria a chamar-se de rua da Trindade, por ter nela sido erigido uma ermida desta devoção, na casa de um dos seus moradores.

Segundo as regras de construção da vila, foi da Praça que nasceram as outras ruas que iriam compor, primeiro o Povoado desde o século XV, depois a Freguesia em 1505 e a elevação da vila de Água de Pau em 1515.
Dou um salto no tempo e sobre os motivos em que foi suprimido o concelho da Vila de Água de Pau em 1853 gostaria de contestar o mesmo porque “Um inquérito industrial realizado em 1845 revela que a vila e concelho de Água de Pau tinha conhecido um período de industrialização pujante na segunda metade do século XVIII e na primeira metade do século XIX, pois, apesar de apresentar um funcionamento já decadente naquela data, tinha 30 moinhos de água, onde ainda trabalhavam 40 operários, e tinha ainda 12 fábricas de pelames que ocupavam 30 operários, sendo que apenas 4 moinhos e 1 fábrica tinham construção datada dos anos vinte do século XIX, residindo eventualmente aqui a maior razão para que Água de Pau, apesar da sua pequenez geodemografia, se ter mantido como concelho até finais de 1853, portanto sem nunca ter sido integrada no concelho de Lagoa” [Cf. Fátima Sequeira Dias, ob. cit., p. 93]. Naturalmente que se podem aventar várias razões porque tinha Água de Pau todos aqueles moinhos e fábricas de peles, razões que julgamos devem contemplar três aspetos: 1º – A grande riqueza das terras agrícolas situadas entre aquela vila e o termo da vila da Lagoa, que ainda hoje são consideradas das mais férteis da ilha e aptas ao cultivo de cereais; 2º – O pastoreio de gados nas extensas encostas da Serra de Água de Pau como fornecedora de peles; 3º – O caudal permanente e controlado por comportas do grande paul de Água de Pau, que se situava acima da igreja paroquial, e que era drenado a céu aberto por várias ruas da vila, onde, eventualmente era canalizado para os moinhos e fábricas de curtume das peles.

Sobre o Povo da Vila de Água de Pau, sua evolução, seu património, sua cultura e tradições falarei no meu próximo livro “Antes que a Memória se Apague II – Crónicas de Água de Pau a publicar em dezembro deste ano.
Todos deveriam saber ligar a terra à família e à história como os pauenses. A história da nossa terra, as origens da família, as expressões típicas da nossa vila onde nasceram os nossos avós caraterizam o nosso povo. O pauense não deixa o passado escoar tão rapidamente por entre os seus dedos. E se alguns dizem que o pauense ainda vive do passado, eu tenho certeza de que é isso o que o faz ter raízes tão fundas e fortes.
O açoriano deveria ter o balanço entre a rigidez e o afeto que têm os pauenses. Todo o país deveria ter uma data como o 15 de agosto da “Quirida” Senhora dos Anjos para celebrar.

Parabéns Vila de Água de Pau pelo teu 505º Aniversário – 1515/2020.

(Crónica publicada na edição impressa de agosto de 2020)

Categorias: Opinião

Deixe o seu comentário