1º Centenário das aparições no Monte D’Água de Pau – 4ª parte

A 5 de Julho apareceu Nossa Senhora à Joana

A MORTE DA VIDENTE E A CONSTRUÇÃO DA ERMIDA
Os pais e familiares de Joana viam passar os anos com aflição, porque souberam pela Joana que Nossa Senhora lhe houvera dito que iria ter um tempo de vida determinado.

Pela pena do pauense J.Avlis [Professor João Ferreira da Silva] no jornal “A Ilha”, quando, ainda antes do milagre, as duas crianças rezavam no Monte Santo, a Joana, já acompanhada dos seus pais, lhes indicou, certo dia, que « aquele montinho de pedras que ali está é onde vou deixar a minha roupinha quando Nossa Senhora me vier buscar».

Os dias iam passando e a promessa logo se verificou quando Maria Joana Tavares do Canto, acometida de uma doença incompreensível, ela ia morrendo e sentindo alegria. Morreu quando completou os 18 – dez anos depois do milagre – porque foi assim que Nossa Senhora lhe havia prometido, e a Joana o afirmava com toda a convicção.

Falecia assim a menina criada na abastança da casa paterna, rodeada de conforto e carinho, que percorria ravinas e íngremes encostas como se de há muito seus pés se tivessem afeito ao piso incómodo do cascalho negro ou à surpresa das silvas bravias. Sem educação religiosa e sem leituras sugestivas no viver rústico da sua vila, durante dezoito dias a pequenina joana subia o monte e lá se quedava em oração.

Naquela tarde o sinal prometido apareceu no sol, visível à vista desarmada, com rotações velocíssimas na aureola do disco solar, tendo o centro de um azul desmaiado.

Ilusão coletiva? Houve quem afirmasse ter presenciado o mesmo fenómeno a muitas léguas de distância daquele monte e sem o contágio de uma sugestão irresistível.

Passaram meses…depois os anos. E nunca mais voltaram a ser assunto da conversa ao serão ou motivo de rijas discussões em espíritos animados e de mais fácil crença.

A pequenina Joana cresceu e depois piedosamente os seus olhos se fecharam quando refloriram os dezoito anos da sua primavera – a idade em que sempre afirmava que viria a falecer.

Estava-se então numa altura em que, sem se ter um jornalismo de igreja, todos quantos se dedicavam à informação possuíam o sentido da responsabilidade moral/social, cujo valor era imprescindível aos poucos que informavam.

As Aparições ou Revelações de origem sobrenatural sempre foram e são bem vindas porque nunca trazem em si qualquer mal. Podiam e « podem ser espalhadas e lidas pelos fiéis, mesmo sem licença expressa das autoridades eclesiásticas, contando que se observe a moral cristã geral » . [Paulo VI em AAS 58 de 1966].

Dentro do sentimento religioso de cada um de nós, quando há Deus há mesmo Deus, sem a intervenção seja de quem for. Assim acontece quando sentimos que Nossa Senhora Mãe de Cristo é algo na nossa vida.

Segundo a opinião de Sua Santidade o Papa João Paulo II, onde Nossa Senhora se manifesta fica sempre uma certeza.

Há alguns lugares, nos quais os homens sentem particularmente viva a presença da Mãe. Não raro, estes lugares irradiam amplamente a sua luz e atraem a sai a gente de longe. O seu círculo de irradiação pode estender-se ao âmbito de uma diocese, a uma nação inteira, por vezes a vários países e até aos diversos continentes. Estes lugares são os santuários marianos.

Este pensamento de Sua Santidade, o Papa João Paulo II, parece algo tirado da alma daqueles que por força da sua fé, vieram de longe e subiram ao Monte Santo naquele dia 5 de julho do ano de 1918. O «seu círculo de irradiação» naquela tarde de verão estendeu-se sobre aquele simples lugar de Água de Pau, e consagrou um mistério de Nossa Senhora transmitido a uma ingénua criança de 8 anos ! … Por isso o Monte santo foi e é um Santuário Mariano que espera um julgamento da Igreja.

Habituado que fui a levar em conta tudo o que o professor João ferreira da Silva escreveu na imprensa sobre as aparições do Monte Santo, embora o tenha escrito 28 anos depois do ocorrido milagre, reconheço neste ilustre pauense que escrevia sob o pseudónimo de J.Avlis, o empenho, rigor e a coerência com que publicava os seus artigos.

A CONSTRUÇÃO DA ERMIDA
Na publicação anterior [parte III do Diário da Lagoa] referi-me à Dona Maria do Carmo, prima-irmã da vidente Maria Joana Tavares do Canto. Tendo Joana sido filha única de Teófilo Tavares do Canto, foi ela quem ficou incumbida de dar continuidade à existência da Ermida, visto que inicialmente este encargo não foi determinado nem à Paróquia de Nossa Senhora dos Anjos nem à Diocese Açoriana. É ela que, na qualidade de membro da família Tavares do canto e benfeitora da Ermida de Nossa Senhora do Monte, de um modo de sinceridade profunda nos diz:
« Depois da morte de minha prima os meus tios pensaram logo dar cumprimento à vontade da sua filha vidente, a Joana.

Embora ainda prevalecessem os acontecimentos de Fátima sem solução à vista, porque essas coisas de milagres e aparições continuavam complicadas, ainda assim o meu tio Teófilo, pai da vidente, naturalmente depois de falar com o senhor Padre João Moniz de Melo, falou com o meu primo Engº Floriano Victor Borges – primo da Joana e nosso primo por afinidade – para que este projetasse e orientasse a ermida que se ia construir em homenagem à sua filha por determinação de Nossa Senhora.

Também ele, primo Floriano, tinha visto o milagre do dia 5 de julho daquele ano de 1918. Este logo se prontificou a dar início a esta pretensão dos meus tios.

Porque no lugar onde aparecia Nossa Senhora seria impossível erguer uma ermida, visto que era na banda sul da cumieira do pico que se davam os contactos sobrenaturais Nossa Senhora{vidente joana, e porque, também no cimo da mesma erguer um templo seria impossível, o meu Tio Teófilo adquiriu a parte mais plana entre os extremos do pico – já então Monte Santo – a fim de erguer a presente ermida.

Não foi fácil acarretar os materiais para aquela construção porque não existia qualquer caminho nem atalho para este fim.

Depois daquela zona de construção estar aplanada e abertos os alicerces para o começo da edificação, foram feitos contactos com alguns almocreves de Água de Pau, os quais dificilmente acarretaram a pedra, a água e outros materiais para a construção da ermida, subindo com os seus animais a inclinadíssima encosta do monte no sentido nascente/poente.

O projeto do Engº Floriano não podia ter sido mais rico e mais simples: de formato de seis fases no corpo alongado onde se nota um pouco de gótico, a bonita e pequena Ermida de Nossa Senhora do Monte Santo ´é assim descrita pelo genealogista Dr. Hugo Moreira:

«A ermida de Nossa Senhora do Monte, no Pico do Concelho, em Água de Pau, foi mandada edificar por Teófilo Tavares do Canto e sua esposa Isolina Adelaide Soares.

Esta Ermida foi construída perto do local onde se deram as aparições de Nossa Senhora a Maria Joana Soares Tavares do Canto, filha deste casal. Maria Joana nasceu em Água de Pau,a 21 de Agosto de 1910. Já andava na escola quando começou a vir para este Pico, na companhia de seus avós e mais tarde com meninas da sua idade.

Na adolescência, Maria Joana ia com frequência ao Pico rezar na companhia de uma menina chamada Sofia. Esta nascera na América do Norte, filha de pais irlandeses já falecidos e fora adotada por um casal sem filhos, de Água de Pau. Era um pouco mais nova que Joana. Começaram a ser notadas pela piedosa devoção, embora às vezes fossem acompanhadas de outras meninas».

Como é fácil de compreender, a referência feita ao « Pico do Concelho «demonstra que aquela elevada altitude, atrás descrita pelo cientista Prof. Dr. Hugo Forjaz, composta por matérias calcinadas, antes de ser aplanada na zona onde foi construída a ermida, era propriedade do Concelho da Lagoa, por isso chamada de Pico do Concelho».

[ Numa próxima edição daremos conta da constituição interior da Ermida]

Por: RoberTo MedeirOs
(Artigo publicado na edição impressa de novembro de 2018)

Categorias: Opinião

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