1935 – A antiga CASA VIEIRA na Praça Velha d’Água de Pau

Foto: RM

Antes de abrir a sua Cova da Onça em 1936, Manuel Egídio de Medeiros, meu pai, foi empregado de balcão da antiga Casa Vieira dos irmãos da sua madrinha e mãe de criação, Laura Vieira, neste ano de 1935 e no anterior. O tio-padrinho, Jacinto Inácio, pagou aos cunhados para que meu pai aprendesse a ser comerciante neste antigo estabelecimento comercial fundado na segunda metade do século XIX.
A Casa Vieira era agente de vendas da SHELL, conforme o “reclamo”, na esquina, com o antigo Largo do Barracão. Por isso, costumava, segundo meu pai, colocar-se no passeio algumas latas de gasolina, que nesta foto não consta.
Em duas portas, podemos ver em cima de bancos alguns dos artigos que se vendiam neste estabelecimento. Já os três rapazotes por trás das bicicletas eram apenas figurantes que o primo António Inácio Vieira, aprontara com a sua máquina fotográfica, para o efeito, na praça. Os dois homens em pé eram o Júlio «assoa-na-manga» e o Luís «soleta».
Na outra porta, à direita, está um emigrante acabado de regressar do Brasil. Quando chegava do Brasil alguém, distinguiam-se pelo seu chapéu de palha. Este era o Alvarino «casaca-forrada» que tinha vindo para pagar as Festas de Nª Sª dos Anjos em agosto, uma promessa que tinha feito se a vida lhe corresse bem no Brasil.
Desde a última década do século XIX que outro emigrante, José Inácio de Medeiros, tio-avô de meu pai, também viera do Rio de Janeiro, para onde emigrara, por 13 anos seguidos assumir as Festas da Senhora dos Anjos por promessa. Ficava sempre na sua casa em frente ao Convento da Caloura [casa grande], sendo seu ordenança e procurador, seu sobrinho António «cabeça-de-malho».
A dada altura a mulher cansada de ver o marido nestas andanças todos os anos de regresso aos Açores, rogou-lhe em desabafo uma praga: – “e, esse barco não vai pró fundo?!”. Se foi sem intenção, a verdade é que no regresso da 13ª viagem, o barco foi mesmo ao fundo numa tempestade e aquele nosso parente não pôde mais cumprir mais nenhuma promessa.
No dia 15 de agosto, a Vila de Água de Pau recebia desde madrugada muitos forasteiros que chegavam à Praça Velha e insurgiam-se de imediato no mercado local das frutas da época, muito desejadas, como as maçãs das quintas do Ginjal, da Canada do Largo Grande, as melancias da Amoreirinha, do Valongo e das Terras do Rei e também o típico e famoso vinho novo da Caloura!
Naquele tempo, embora as ruas por onde passava o cortejo fossem todas terreiras, cordões de verdura de criptoméria pendiam entre os mastros colocados nas bermas da rua e vasos improvisados de cana da india, com flores eram dependurados nos mastros também.

Foto: RM

A “arte saía à rua”, quando um dos elementos decorativos imprescindíveis, sob os quais passava a procissão – os tapetes – eram cuidadosamente elaborados desde que se iniciaram as primeiras Procissões de Nª Sª dos Anjos na Vila de Água de Pau.
Lá se vão muitos anos… As festas religiosas sempre deram imenso trabalho e são ocasião de gastos enormes! Tratou-se sempre de um verdadeiro culto a Nª Sª dos Anjos. Por um lado, é uma expressão autêntica de nossa fé, e por outro, uma expressão legítima da alegria cristã das nossas gentes – do povo da Vila de Água de Pau!
Quando não aparecia emigrante para ajudar a comissão das Festas, era o próprio padre local João Moniz de Melo quem algumas vezes financiava, ele próprio, a festa com os suprimentos que recebera de herança da sua família, nos Arrifes.
Tudo se passava na Praça Velha. Muito se passou depois na Praça da República após a queda da monarquia em Portugal e mudou de nome. Mas a Praça mudem-lhe o figurino, quando quiserem, mas sempre foi e continua a ser ali o ponto de encontro dos pauenses.

Por: RoberTo MedeirOs

(Crónica publicada na edição digital de maio de 2020)

Categorias: Opinião

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